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domingo, outubro 4, 2026

Do endividamento à imagem: os principais desafios do agro que o próximo presidente herdará

O setor agropecuário deixará ao sucessor na Presidência uma agenda com entraves que especialistas consideram maiores do que um mandato presidencial pode resolver. A Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) apresentou cinco eixos de políticas públicas para enfrentar problemas que vão do financiamento rural até a abertura de mercados externos.

Propostas da Abag

A Abag recomenda políticas nas áreas de: financiamento, seguro rural e resiliência climática (incluindo um Fundo Nacional de Catástrofes Climáticas); política industrial para fortalecer cadeias estratégicas e ampliar a produção de insumos; governança, planejamento e financiamento da infraestrutura agroindustrial, com modernização dos licenciamentos; comunicação e educação para valorizar a agroindústria; e inserção internacional para enfrentar barreiras comerciais.

Financiamento e seguro rural

Pesquisadores consultados pelo g1 apontam que o custo do crédito é o principal entrave. Felippe Serigati, da FGV Agro, afirma que juros elevados refletem o endividamento de produtores e o aumento de pedidos de recuperação judicial, tornando os bancos mais seletivos. Leandro Gilio, do Insper Agro Global, relaciona a inadimplência a prejuízos em safras consecutivas, influenciados por eventos climáticos, juros altos e custos elevados de produção.

Atualmente, segundo Gilio, apenas 3% da produção agropecuária conta com cobertura de seguro. A lei 15.526/2026, publicada no Diário Oficial da União na quarta-feira (30), cria um novo marco regulatório para o seguro rural, regulamenta o Fundo de Catástrofe e torna obrigatória a subvenção ao prêmio do seguro rural — mudança que a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) avalia como proteção contra contingenciamentos.

Cadeias estratégicas e insumos

Especialistas destacam a dependência de fertilizantes: o Brasil importa cerca de 80% dos adubos químicos que consome, com parte dos fornecedores localizada em regiões afetadas por conflitos ou rotas sensíveis, como o Estreito de Ormuz. O Plano Nacional de Fertilizantes busca reduzir essa dependência, mas seus efeitos são de longo prazo e dependem de disponibilidade de matérias‑primas como potássio, fósforo e nitrogênio.

Carlos Eduardo de Freitas Vian, da Esalq‑USP, afirma que, embora o país produza alguns insumos e exporte maquinário, há dependência de componentes eletrônicos e de um “passivo regulatório” que atrasa aprovações de tecnologias, especialmente defensivos, em razão de testes de segurança ambiental e sanitária.

Infraestrutura agroindustrial

O setor enfrenta limitações de armazenamento, trechos rodoviários em más condições e demora na concessão de licenças ambientais para obras, o que atrasa projetos com financiamento já aprovado. Serigati observa que a infraestrutura dificilmente crescerá no ritmo da produção nos próximos quatro anos, citando um aumento da oferta que se aproximaria de quase 100 milhões de toneladas — equivalente à safra da Argentina.

Especialistas defendem maior integração modal (ferrovias e hidrovias), ampliação do armazenamento e conectividade no campo. Dados do IBGE indicam que mais de 1,3 milhão de domicílios rurais não tinham acesso à internet em 2024, o que equivale a 15% do total. A participação da iniciativa privada em concessões, privatizações ou parcerias público‑privadas é apontada como necessária para ampliar investimentos.

Comunicação e valorização

Para melhorar a imagem do setor, especialistas defendem uma política de comunicação que destaque contribuição do agro para segurança alimentar, inovação e sustentabilidade, ao mesmo tempo em que mostre disposição para corrigir fragilidades. Vian sugere capacitação de representantes e atuação coordenada entre governo e entidades privadas. Gilio cita exemplos internacionais, como a marca do café colombiano, como referência para agregar valor pela origem.

Inserção internacional e competitividade

O Brasil precisa, segundo especialistas, aumentar acordos comerciais de longo prazo e atuar preventivamente frente a possíveis restrições de parceiros. Leandro Gilio menciona a necessidade de um acordo com a China e critica a reação tardia do país a medidas internacionais, como a proibição de determinados antimicrobianos pela União Europeia. A concentração das exportações em poucos mercados é vista como risco que exige articulação diplomática e setor privado atuante nas negociações.

Os entrevistados reforçam que várias dessas agendas já recebem atenção do governo atual, mas demandam políticas de longo prazo, articulação entre setor público e privado e aprimoramento na execução para obter resultados significativos.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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