Secretário defende calibração do drogômetro para diferenciar tratamento e abuso
O Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou em agosto uma resolução que regulamentou o uso do chamado “drogômetro” na fiscalização da Lei Seca. Em entrevista ao g1, o secretário nacional de Trânsito, Adrualdo de Lima Catão, reconheceu que a lista de substâncias detectáveis pelo equipamento inclui compostos presentes em medicamentos usados em ambiente hospitalar e vendidos em farmácias.
Catão mencionou o medicamento Venvanse, indicado para tratamento do transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), como exemplo de substância que, quando tomada conforme prescrição, não inviabiliza a condução de veículos. Segundo ele, o objetivo é evitar que o equipamento identifique apenas vestígios e, em vez disso, registre consumo relevante que afete a capacidade de dirigir.
O secretário acrescentou que há situações em que o mesmo medicamento pode ser utilizado de forma ilícita, como quando alguém consome várias doses para ficar “doidão” em uma balada. Nesses casos, o aparelho precisa ser capaz de identificar níveis compatíveis com uso abusivo, e não apenas detectar traços residuais.
O que o drogômetro identifica
O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) informou ao g1 que já existe no país um teste de saliva capaz de detectar preliminarmente uma série de drogas. A relação apresentada inclui 12 substâncias: anfetamina; cocaína; MDMA (ecstasy); 6-MAM (derivado da heroína); LSD; Δ9-THC (canabis); fentanil; cetamina; K2 (canabinoides sintéticos); morfina; metanfetamina; e MDPV.
Medicamentos que contêm substâncias detectáveis
Especialistas consultados destacam que, entre essas doze substâncias, cinco podem estar presentes direta ou indiretamente em medicamentos comercializados ou administrados em hospitais. A professora e doutora em química Tula Beck Bisol, do Instituto Federal de Santa Catarina, apontou casos como a morfina (presente em remédios como Dimorf), o fentanil (usado em adesivos para dor crônica), a cetamina e suas variantes (aplicadas em tratamentos de dor e depressão), compostos derivados da cannabis (presentes em fórmulas à base de CBD/THC) e substâncias que se transformam em anfetamina após metabolismo — como ocorre com o Venvanse.
O infectologista pediátrico Renato Kfouri, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, ressaltou que medicamentos com esses princípios ativos são controlados e exigem receituário especial. Ele afirmou que pacientes devem ser informados sobre possíveis efeitos, como sonolência e alterações do estado de alerta. A farmacêutica Laura Marise, do Nunca Vi 1 Cientista, recomendou a leitura da bula e observou que procedimentos hospitalares costumam prever um tempo de eliminação da substância antes da alta, evitando que anestésicos ou outros fármacos sejam detectáveis posteriormente — salvo em casos de liberação irregular ou uso recreativo.
Autoridades e técnicos ainda devem definir critérios objetivos, incluindo limites aceitáveis de concentração, para que o drogômetro diferencie vestígios de consumo que efetivamente comprometam a direção.
Fonte: G1


