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sábado, outubro 3, 2026

El Niño provoca seca severa e ameaça segurança alimentar no Corredor Seco da América Central

Seca histórica no Corredor Seco

Comunidades rurais do Corredor Seco da América Central enfrentam perda de colheitas, escassez de água e morte de animais em decorrência da seca associada ao El Niño. A faixa, que atravessa partes da Guatemala, Honduras, El Salvador, Nicarágua e Costa Rica, abriga mais de 10 milhões de pessoas, das quais mais de 70% da população rural vive em situação de pobreza.

O agricultor Juan Estanislao Muñoz, de 61 anos, que mora na comunidade das Chácaras, no Departamento de Choluteca (sul de Honduras), descreve a crise como sem precedentes: “Tenho 61 anos e nunca, na minha vida, vi uma seca como esta”.

Na região, a produção de milho e feijão — base da agricultura de subsistência local — foi severamente afetada. Produtores costumam cultivar duas safras por ano: a primeira entre maio e agosto e a segunda, entre agosto e dezembro. Muitos relataram perdas totais na primeira safra e risco de não serem capazes de plantar a segunda se as chuvas não retornarem.

Muñoz relata ainda o sofrimento do rebanho: “Tenho uma vaca, mas, agora, ela não está comendo pasto, mas sim terra, folhas… O gado aqui está morrendo de sede e de fome.”

Impacto humanitário e dados do PMA

O El Niño é um fenômeno climático natural que eleva a temperatura da superfície do Pacífico e altera padrões de vento e chuva. O Serviço Meteorológico do Reino Unido afirmou à BBC que a atual ocorrência é a mais intensa desde 1900, segundo uma das medidas de aquecimento do oceano Pacífico.

A diretora regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) para a América Latina, Lena Savelli, afirmou que, durante visita a Honduras, viu rios e poços secos e agricultores com perdas substanciais de milho e feijão. “Visitei Choluteca, uma comunidade onde o rio que abastecia famílias inteiras há anos, hoje, é simplesmente um caminho cheio de terra e pedras”, disse Savelli.

O PMA projeta que, somente em Honduras, o número de pessoas em insegurança alimentar pode subir de 1,4 milhão para 1,9 milhão — um acréscimo de cerca de 500 mil pessoas. Para toda a América Central, a agência estima que 4,2 milhões poderão entrar em situação de insegurança alimentar. Na América Latina e no Caribe, o PMA calcula que ao menos 16 milhões de pessoas adicionais poderão sofrer oferta insuficiente de alimentos. Em escala global, o fenômeno pode elevar o total de pessoas em insegurança alimentar aguda de 225 milhões para 274 milhões, um aumento estimado em 49 milhões.

Ajuda emergencial e respostas

Em coordenação com governos da região, o PMA implementou ações preventivas desde março de 2026, atendendo mais de 400 mil pessoas com transferências em dinheiro e sacos de alimentos. Os pagamentos em dinheiro previstos nas ações antecipadas equivalem a US$ 150 por mês (aproximadamente R$ 785). Atualmente, a agência informa que fornece assistência em dinheiro a mais de 470 mil pessoas afetadas na América Central.

O conjunto de medidas de emergência inclui também distribuição de sementes mais resistentes e linhas de crédito para agricultores, com colaboração de organizações como a FAO.

Depoimentos e relatos locais

O casal Lorenzo Carranza Hernández e Rosa Arístides, de Choluteca, costumava obter colheitas suficientes para encher silos e manter renda estável. Lorenzo lembra que “tirava até 60, 70 cargas de milho e gerenciava três silos”. Hoje, por complicações de saúde e falta de produção, eles dependem de auxílio externo.

Em San Lorenzo, Departamento de Valle (Honduras), Lidia Ochoa relatou à AFP que a família oscila entre dias de alimentação e dias sem comer: “Às vezes, me ponho a chorar. Às vezes comemos, às vezes não”.

Na Guatemala, a líder indígena Elvira Pasá, de Cunén, relata perda total das safras de milho: “A verdade é que já estou ficando com medo, pois não sabemos com o que iremos viver”, disse ela à AFP.

Levantamentos e efeitos sistêmicos

Relatório de agosto produzido por organizações como Oxfam e Ação contra a Fome avaliou 58 municípios de Guatemala, Honduras e El Salvador. Das cerca de 73 mil famílias que semearam milho no primeiro ciclo de 2026, mais de 70 mil relataram perdas, e 78,6% dessas famílias perderam entre 75% e 100% da produção.

O documento também apontou que o retorno de migrantes deportados ou sem recursos aumentou a pressão sobre recursos já escassos. Em mais de 300 comunidades avaliadas, foram registrados efeitos encadeados: perda de colheita, esgotamento de reservas, interrupção de remessas, endividamento e enfraquecimento de serviços básicos de saúde e educação.

Perspectivas e medidas de médio prazo

Autoridades regionais ativaram programas de emergência que incluem distribuição de alimentos, linhas de crédito e kits agrícolas com sementes mais tolerantes à seca, como no caso de El Salvador em parceria com a FAO. O PMA e representantes locais defendem que intervenções antecipadas ajudam a evitar decisões desesperadas das famílias, como venda de gado ou redução drástica do consumo.

Segundo Savelli, é necessário combinar respostas imediatas com medidas de médio e longo prazo para fortalecer resiliência, como sistemas de alerta precoce, gestão de recursos hídricos e proteção social. O PMA alerta que os efeitos do El Niño devem se intensificar em novembro e dezembro e que suas consequências poderão se estender por grande parte de 2027.

Na comunidade das Chácaras, os moradores ainda mantêm a terra preparada para semear, mas dependem de poços que já estão secos ou secando. “Se este poço acabar, estamos fritos”, declarou Muñoz. “Precisamos ir buscar água onde ela estiver.”

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
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Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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