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segunda-feira, agosto 10, 2026

Empresas de IA compram e destróem milhares de livros usados para treinar modelos, dizem livreiros e investigadores

Livreiros relatam compras em massa e digitalização destrutiva para alimentar modelos de linguagem

Livreiros em diferentes países começaram a identificar compras incomuns de exemplares antigos e usados, que depois são digitalizados de forma destrutiva por empresas ligadas ao desenvolvimento de inteligência artificial (IA). O caso ganhou atenção a partir de encomendas recebidas em abril e maio por Marçal Font, livreiro com 20 anos de experiência na Livraria Fénix, em Badalona, na Catalunha, e de relatos semelhantes na Holanda, Austrália, Alemanha e Nova Zelândia.

No dia 30 de abril, Font recebeu um pedido vindo do Canadá que chamou sua atenção. Em seguida, no início de maio, uma nova série de solicitações chegou em janelas de tempo curtas — uma hora ou 40 minutos —, várias por e-mail e com pagamento antecipado, inclusive cobrindo custos de envio muito acima do normal. Por precaução, ele e o pesquisador de IA Xavier Vinaixa começaram a investigar o padrão e localizaram outros livreiros com experiências parecidas.

Relatos publicados em veículos internacionais reforçam o padrão. O antiquário Pieter de Vries, de Haarlem (Holanda), disse ao jornal britânico The Telegraph que é raro no comércio de livros antigos alguém pedir centenas de exemplares de uma só vez. No Reino Unido, o The Guardian citou a livreira australiana Delfina Manor, que recebeu pedido e pagamento antecipado semelhantes aos feitos a Font.

Esses indícios associaram-se à investigação jornalística que expôs um plano conhecido como “Projeto Panamá”. Em setembro de 2025, a empresa de IA Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão (R$ 7,2 bilhões) para encerrar uma ação coletiva de autores que alegavam uso não autorizado de obras para treinar modelos. Quatro meses depois, o Washington Post publicou um documento do processo no qual a empresa descrevia um esforço para “escanear de forma destrutiva todos os livros do mundo”.

O professor e autor argentino Maximiliano Firtman, um dos que processaram a Anthropic, disse que o juiz do caso considerou que, se a empresa comprasse o exemplar do livro, poderia utilizá-lo no treinamento da IA. A partir disso, surgiram relatos de livrarias que vendiam exemplares pouco procurados a empresas e de empresas especializadas em transformar esses livros em arquivos digitais.

Segundo o jornalista de tecnologia Rodrigo Álvarez, do canal Todo Noticias (TN), existem dois métodos de digitalização: o não destrutivo, que usa scanners planos ou em V, e o destrutivo, que começa com o corte da lombada para separar páginas e utiliza scanners industriais de alta velocidade. O processo destrutivo é escolhido por escala e custo, permitindo digitalizar milhões de exemplares mais rapidamente; após o escaneamento, os restos são normalmente encaminhados à reciclagem.

Há preocupação sobre o destino de edições raras e de materiais sem ISBN. Miguel Ángel Ortega, presidente da Associação Profissional do Livro e do Colecionismo Antigos da Espanha, pede distinção entre grandes tiragens e edições limitadas, alertando que exemplares únicos ou de valor patrimonial não deveriam ser destruídos. Font também chama atenção para o risco de perda de materiais produzidos sem ISBN — fanzines, publicações de contracultura e documentos de dissidência — que podem não ser digitalizados nem preservados.

Especialistas ressaltam ainda que a digitalização não substitui a conservação: arquivos digitais privados podem ficar inacessíveis a leitores e pesquisadores, e metadados essenciais — encadernação, anotações, qualidade de impressão e procedência — podem se perder no processo. Para evitar perda de informação contextual, Vinaixa propõe que livreiros e bibliotecas realizem suas próprias digitalizações e licenciem os dados, preservando os exemplares e seus metadados originais.

Firtman alerta para um risco futuro: a dependência crescente de dados gerados por IA para treinar novas IAs, o que poderia levar a uma degradação progressiva da qualidade da informação. Álvarez ilustra o problema comparando-o a uma serpente que devora a própria cauda, em que erros e simplificações se multiplicam quando modelos são treinados com saídas de outros modelos.

Na Livraria Fénix, após as compras estranhas de abril e maio, Font registrou mudanças na logística dos compradores e novas solicitações de envio não só para a América do Norte, mas também para a Alemanha. Depois de um mês sem atividade, uma nova encomenda chegou recentemente, levando-o a concluir que o “Projeto Panamá” segue em andamento.

Fonte: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/08/10/por-que-empresas-de-ia-estao-destruindo-milhares-de-livros-ao-redor-do-mundo.ghtml

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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