A adoção de inteligência artificial nas organizações já modifica processos, decisões e estruturas de equipe, e a principal preocupação deixou de ser apenas quantos postos poderão desaparecer: o foco passou a ser como as empresas e instituições estão capacitando as pessoas para atuar num ambiente em que tarefas serão executadas de formas diferentes.
O Barômetro de Empregos de IA 2026, elaborado pela PwC, revela que a participação de anúncios de emprego que pediam competências em IA no Brasil subiu de 1,1% em 2024 para 3,6% em 2025. O aumento indica que a transformação não se limita a cargos técnicos, mas exige que setores diversos integrem ferramentas de IA em gestão, atendimento ao cliente, vendas e operações.
Especialistas e estudos apontam que a implantação de tecnologia por si só não garante ganhos. Empresas podem investir em soluções de IA e ainda enfrentar problemas de produtividade, qualidade no atendimento e deficiências administrativas se não revisarem processos e não treinarem adequadamente os profissionais que usarão essas ferramentas. É necessário mapear o que pode ser automatizado, quais decisões exigem julgamento humano e quais competências devem ser priorizadas.
Competências como pensamento analítico, capacidade de adaptação, criatividade, comunicação e liderança passam a ter peso semelhante ao das habilidades digitais. O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, alerta que a estrutura de competências demandadas deve mudar de forma significativa até 2030, tornando a requalificação uma necessidade explícita para empresas e trabalhadores.
O impacto é especialmente sensível no início de carreira. Atividades de entrada — organizar informações, elaborar relatórios e produzir versões preliminares de documentos — podem ser parcial ou totalmente automatizadas. Essas tarefas, contudo, também oferecem aprendizado prático que ajuda o profissional a entender processos e construir capacidade de julgamento. Se esses pontos forem automatizados, as organizações terão de criar novos caminhos para formar e desenvolver talentos.
Na prática, a transição exige decisões gerenciais concretas: investir em capacitação, revisar descrições e responsabilidades de cargos, estabelecer métricas claras para avaliar ganhos de produtividade e comunicar de forma transparente as mudanças para evitar insegurança entre equipes. Líderes, áreas de recursos humanos e instituições de ensino entram no mesmo plano de responsabilidade para viabilizar a adaptação do mercado de trabalho.
A discussão, então, ultrapassa a simples substituição de pessoas por máquinas e coloca a pergunta sobre o papel das organizações na formação de profissionais prontos para operar com IA: estamos apenas incorporando tecnologia ou preparando equipes para tirar proveito efetivo dessas ferramentas? A resposta influenciará produtividade, formação de novos profissionais e a sustentabilidade do crescimento.
Por Paulo Zahr
Empresário, investidor e executivo
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