Um levantamento do UNICEF conclui que a decisão sobre a via de nascimento é construída ao longo da gestação e resulta da interação de fatores psicológicos, sociais e estruturais, o que ajuda a explicar por que muitas brasileiras que desejam parto normal acabam realizando cesariana.
O estudo ouviu 94 gestantes e puérperas e entrevistou 37 profissionais de saúde das redes pública e privada em Belém (PA) e São Paulo (SP), cidades escolhidas por apresentarem altas taxas de cesarianas e contextos sociais diferentes. Os pesquisadores destacam que a escolha não se resume à vontade da mulher no momento do parto; medos, crenças, relatos de familiares, experiência prévia, qualidade do pré-natal, organização dos serviços e acesso à informação influenciam simultaneamente o desfecho.
Segundo o relatório, a preferência inicial da maioria das brasileiras é pelo parto vaginal, mas a cesariana é a via mais frequente no país. Nos locais analisados, 69,28% dos nascimentos em Belém e 56,19% em São Paulo foram por cesariana. Na rede privada, os percentuais alcançaram 80,41% em Belém e 71,05% em São Paulo. O documento ressalta que, embora a cesariana seja essencial quando indicada clinicamente, sua ocorrência no Brasil excede o esperado para situações de urgência obstétrica.
Quando e como a decisão é formada
O relatório aponta que a decisão não se limita ao momento da internação. Ela se consolida durante o pré-natal, à medida que a gestante recebe orientações, troca experiências com familiares, acompanha relatos de outras mulheres e estabelece vínculo com profissionais de saúde. O estudo mostra que muitas solicitações de cesariana ocorrem durante o trabalho de parto não por intercorrências clínicas, mas por cansaço, dor intensa e desconhecimento sobre a evolução do processo.
Os autores classificaram os determinantes em três grupos. Entre os fatores psicológicos, aparecem tanto elementos que favorecem o parto vaginal — como recuperação percebida como mais rápida, medo da cirurgia e experiências positivas anteriores — quanto barreiras, como medo da dor, sensação de despreparo, desejo de laqueadura e baixa autonomia para decidir.
O ambiente social também tem peso: entre usuárias do SUS, mães e outras mulheres da família tendem a encorajar o parto vaginal; na rede privada, há relatos positivos sobre cesarianas que viraram norma social entre mulheres que tiveram filhos na fase de expansão do procedimento. Parceiros, na maior parte dos casos, acompanham pouco o pré-natal, o que pode dificultar a compreensão do trabalho de parto e levar à defesa de cesariana ao testemunharem dor nas contrações.
A organização da assistência influencia a escolha: pré-natal que prepara efetivamente, uso do Plano de Parto, Centros de Parto Normal e acompanhamento contínuo favorecem decisões mais informadas. Barreiras identificadas incluem início tardio do pré-natal, orientações insuficientes, desconhecimento do Plano de Parto, acesso limitado à analgesia, dificuldades para laqueadura após parto vaginal e questões legais sobre cesarianas.
A pesquisa foi qualitativa, observacional e transversal, baseada em revisão bibliográfica, entrevistas e grupos focais. A análise usou o Modelo de Determinantes Comportamentais (Behavioural Drivers Model – BDM) do UNICEF, que considera a interação entre fatores psicológicos, sociais e ambientais nas decisões de saúde.
Como recomendações, o UNICEF sugere fortalecer a preparação no pré-natal, ampliar a participação de parceiros e acompanhantes, incentivar redes de apoio comunitário, melhorar a organização dos serviços e ampliar o acesso ao Plano de Parto, à analgesia e à laqueadura após parto vaginal, para que a escolha da via de nascimento seja efetivamente informada e respeitada.


