O envio acelerado de carne bovina brasileira à China antes do limite de cotas reduziu a oferta no mercado interno e elevou os preços dos cortes, tornando o churrasco durante a Copa mais caro. A estratégia das empresas frigoríficas foi motivada por uma sobretaxa anunciada em janeiro que encarece as exportações para aquele país quando superam determinado volume.
Em janeiro, a China passou a aplicar uma sobretaxa de 55% sobre as exportações de carne bovina brasileira que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas em 2026; até esse patamar, a tarifa permanece em 12%. Segundo Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, a medida alterou a dinâmica habitual do comércio: “O Brasil, tipicamente, exporta mais no segundo semestre do que no primeiro. Esse ano vai exportar mais no primeiro do que no segundo”.
Impacto nos preços ao consumidor
Dados do IBGE mostram que, em maio, todos os cortes de carne bovina subiram ao consumidor, com destaque para o filé-mignon (+4,4%), a picanha (+3,9%) e o peito (+3%). No acumulado de 2026, os aumentos também são relevantes: peito (+13,6%), capa de filé (+11,8%) e picanha (+9,3%).
Analistas apontam que a elevação dos preços tem sido mais influenciada pela contração da oferta do que por um aumento expressivo do consumo interno, mesmo em período de Copa. Iglesias citou ainda fatores que limitam a demanda doméstica, como o baixo poder de compra, o alto endividamento e o efeito das apostas, que vêm reduzindo a circulação de recursos na economia.
Exportações e projeções
Relatório mensal da Consultoria Agro do Itaú BBA também destacou o ritmo acelerado das exportações como principal pressão sobre os preços. Entre janeiro e maio de 2026, os embarques ao mercado chinês cresceram 24% na comparação com o mesmo período de 2025, e a China respondeu por 51% do total exportado.
As projeções da Safras & Mercado indicam que o Brasil deve atingir 98% da cota chinesa até o final deste mês, restando pouco espaço para exportações sem a sobretaxa adicional em julho. A consultoria prevê que a ausência temporária da China no mercado pode reduzir momentaneamente o preço da arroba e aumentar a disponibilidade interna, mas alerta para um cenário de alta a partir do último trimestre.
O motivo apontado é a combinação de demanda aquecida no Brasil e nos Estados Unidos, o retorno gradual da China ao mercado brasileiro e os efeitos do fenômeno El Niño, que tende a reduzir a oferta de gado terminado a pasto, agravando a pressão sobre os preços.
União Europeia
Questionado sobre a suspensão das compras do bloco europeu, Iglesias afirmou que a medida terá impacto limitado nos volumes exportados, já que a União Europeia representa cerca de 3,5% das exportações brasileiras de carne bovina. No entanto, destacou o efeito simbólico da decisão, por a UE funcionar como “mercado vitrine”. A exclusão do Brasil da lista de países autorizados a exportar carne ao bloco foi adotada em maio e passará a vigorar em 3 de setembro.
Fonte: G1 – matéria original


