Panorama da crise
A Finlândia, eleita o país mais feliz do mundo por nove anos seguidos, enfrenta um aperto fiscal que coloca na mesa a possibilidade de reduzir serviços públicos, benefícios sociais e até aposentadorias. A preocupação aumentou após divulgação de dados que mostram a dívida pública em 90,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre de 2026, segundo o instituto nacional de estatísticas do país.
Quem e quando
O governo do primeiro‑ministro Petteri Orpo, no poder desde junho de 2023, vem anunciando medidas de contenção. Com eleições marcadas para abril de 2027, as discussões políticas mudaram de “quanto cortar” para “quais áreas sofrerão os cortes”. Em janeiro, o Conselho da União Europeia abriu um procedimento por déficit excessivo contra a Finlândia, dando prazo até o fim de 2028 para corrigir os desequilíbrios.
Por que a situação piorou
Além do aumento dos gastos com defesa após a adesão à Otan em 2023, o país enfrentou custos adicionais na transição para novos fornecedores de energia, depois de depender historicamente da Rússia para cerca de um terço do seu abastecimento. A dívida pública cresceu desde a pandemia de covid‑19, quando o percentual do PIB era próximo de 65% antes de 2020.
Propostas e números
O Tesouro Nacional projetou um déficit fiscal de 4,2% do PIB para 2026. O governo de Orpo anunciou intenção de economizar cerca de 9 bilhões de euros durante a legislatura atual; economistas, no entanto, indicam que serão necessários cortes maiores, com estimativas variando entre 8 bilhões e 11 bilhões de euros, segundo Jarkko Kivisto, assessor do departamento de política monetária e pesquisa do Banco da Finlândia.
No início de 2026, quase todos os partidos, exceto um, concordaram em adotar um mecanismo de contenção da dívida pública que visa reduzir o déficit para cerca de 2% do PIB até 2031. Orpo, que rejeita aumento de impostos como primeira opção, propõe enxugar gastos em saúde, assistência social e benefícios, além de alterar regimes de previdência vinculados ao emprego sem reduzir benefícios vigentes.
Impactos sociais e no mercado de trabalho
Ainda que a proporção de pessoas em risco de pobreza na Finlândia seja inferior à média da União Europeia, o desemprego tem sido elevado. Em agosto, a taxa geral estava em 10,3% e entre os jovens alcançava 23,3%, segundo dados da Eurostat (média de 15,4% entre jovens na UE). Analistas alertam que novas rodadas de austeridade podem reduzir o consumo privado, já afetado por cortes anteriores, especialmente porque mais de um quarto da população trabalha no setor público.
Gastos militares e energia
Os compromissos de defesa já pesam no orçamento: a compra de 64 caças F‑35A dos Estados Unidos envolve acordo de aproximadamente 8,4 bilhões de euros, e os gastos militares anuais subiram de 4,5 bilhões para mais de 8 bilhões de dólares ao longo do conflito entre Rússia e Ucrânia, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri). Em abril, o governo anunciou aumento dos gastos com defesa para 3,2% do PIB, próximo da meta de 3,5% da Otan.
Paralelamente, a manutenção de preços do petróleo em torno de 100 dólares por barril, em parte por conta das tensões no Irã, pressiona a economia. O Banco da Finlândia registrou aumento de 50% no custo da energia importada nos primeiros meses do conflito, embora a entrada em operação da usina nuclear Olkiluoto 3 em 2023 e a transição para renováveis tenham ajudado a mitigar riscos de uma crise energética mais grave.
Reação dos mercados
Mesmo diante do deterioro fiscal, a reação dos investidores tem sido moderada: as agências de classificação mantiveram perspectiva estável em sua maioria, com exceção da S&P, que em abril mudou a perspectiva para negativa sem rebaixar a nota. Em 6 de outubro, a Finlândia pagava um prêmio de risco de 0,38 ponto percentual em relação à Alemanha para títulos de dez anos; na França esse diferencial era 1,28 e na Itália 1,07 ponto percentual.
Possibilidades eleitorais
Com as eleições de 2027 se aproximando, partidos e eleitores avaliam alternativas entre cortes e medidas de receita. A proposta orçamentária para 2027 ainda indica um rombo de 12,4 bilhões de euros. Em março de 2027, a Finlândia poderá ser eleita pelo décimo ano consecutivo o país mais feliz do mundo, mas a sustentabilidade fiscal e o tamanho dos ajustes a serem adotados permanecem em debate.
Fonte: G1


