Quem e o que: A Polícia Federal, em perícia incluída em investigações cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, descreve irregularidades na relação entre o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master. Os peritos afirmam que o BRB pagou por carteiras de crédito antes da conclusão das avaliações técnicas e fracionou compras para manter decisões em alçada da diretoria, entre outras falhas de controle.
Quando e onde: As operações destacadas ocorreram principalmente entre meados de 2024 e agosto de 2025, com decisões e pagamentos realizados nas sedes e áreas técnicas do BRB e verificações in loco no Banco Master em abril de 2025.
Riscos conhecidos antes da ampliação das compras
Relatórios internos e análises externas já registravam sinais de alerta antes da intensificação das aquisições. Em outubro de 2023, a agência Fitch Ratings revisou a nota do Master, ressaltando volatilidade, complexidade do modelo e exposição a ativos de baixa liquidez. Pareceres técnicos do BRB de setembro e dezembro de 2024 mostraram crescimento de 83,5% nos ativos do Master em 12 meses, alcançando R$ 50,9 bilhões, e destacaram índice de Basileia “muito baixo”, caixa inferior a 10% dos depósitos e forte dependência de plataformas de captação.
Relatório da RISKBank/Eleven, de novembro de 2024, apontou que o volume de crédito do Master correspondia a 7,4 vezes o patrimônio líquido. Apesar desses sinais, em 17 de julho de 2024 a diretoria do BRB autorizou gastos de até R$ 750 milhões para adquirir carteiras do Master, decisão que abriu série de compras.
Pagamentos antes das análises
Exemplos citados no laudo incluem pagamento de R$ 209,32 milhões em novembro de 2024 efetuado um dia antes da autorização da diretoria e outra liquidação de R$ 473,49 milhões em janeiro de 2025 cujas análises de Contabilidade e Risco foram concluídas 11 e 14 dias após o pagamento.
Fracionamento de operações para evitar avaliação do Conselho
Segundo a perícia, a diretoria do BRB tinha competência para autorizar operações de até R$ 750 milhões. O laudo mostra 25 autorizações que juntas somaram R$ 17,5 bilhões, sendo 21 fixadas exatamente em R$ 750 milhões. Em janeiro de 2025 houve quatro compras de R$ 750 milhões em um intervalo curto, totalizando R$ 3 bilhões. Os peritos descrevem que a segmentação manteve formalmente cada ato dentro da alçada da diretoria, mas impediu apreciação integrada do Conselho de Administração.
Documentos, repasses e cobranças com inconsistências
Em fevereiro de 2025 o BRB criou um grupo de trabalho para checar as carteiras adquiridas. Relatório de abril registrou controles manuais em planilhas, dados fictícios, ausência de contratos assinados pelos clientes na amostra e falta de comprovação de descontos em folha. Durante inspeção, técnicos identificaram R$ 15,5 milhões em parcelas pagas por clientes não repassadas; o Master transferiu R$ 14,37 milhões durante a visita. O relatório final de 19 de maio indicou R$ 265,9 milhões em repasses devidos e mais de 1 milhão de parcelas vencidas somando R$ 316,5 milhões.
Apesar das evidências internas, o BRB autorizou mais R$ 2 bilhões em abril de 2025 e, depois dos relatórios, efetuou pagamentos adicionais de R$ 5,23 bilhões. Após o primeiro alerta sobre redução do caixa de curto prazo, foram ainda desembolsados R$ 7,42 bilhões.
Concentração e dependência
Em junho de 2025, 90,31% das carteiras adquiridas pelo BRB estavam concentradas no Master: dos R$ 21,91 bilhões mantidos nessas operações, R$ 19,78 bilhões estavam ligados à instituição. A perícia analisou, ao todo, R$ 47,78 bilhões em operações entre as duas instituições, sendo R$ 31,74 bilhões referentes a vendas de carteiras pelo Master ao BRB.
O laudo aponta repetição de práticas — pagamentos antes de análises, conclusão de pareceres depois dos desembolsos, divisão de compras para permanecer na alçada da diretoria, falta de avaliação independente dos riscos, concentração em uma única instituição e continuidade das aquisições mesmo após alertas — e descreve que esses mecanismos reduziram a eficácia dos controles internos do BRB, caracterizando, segundo os peritos, um padrão compatível com gestão fraudulenta.
Observação: Para acesso ao documento original da reportagem, veja o G1: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/09/11/banco-master-brb-laudo-policia-federal.ghtml


