Quem e o quê: O presidente da Argentina, Javier Milei, tornou-se referência nas eleições presidenciais brasileiras de 2026 depois de promover, desde 2023, um ajuste fiscal profundo apelidado de “Plano Motosserra”, que incluiu cortes de gastos públicos, redução de subsídios, desregulamentação e desvalorização do peso.
Como e quando: Em seu primeiro ano completo no cargo, 2024, o índice S&P Merval subiu cerca de 115% em dólares e 174% em pesos argentinos, e o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 4,4% em 2025. A inflação oficial, que chegou a 211,4% em 2023, caiu para 31,5% em 2025, nível mais baixo em oito anos.
Resultados econômicos e reação social
Apesar de avanços em alguns indicadores fiscais e externos — como o retorno de saldos positivos no comércio exterior e o equilíbrio entre arrecadação e gastos —, os efeitos do ajuste passaram a impactar emprego, renda e consumo. Desde o início da gestão de Milei, mais de 32 mil empresas fecharam ou deixaram de registrar empregados formalmente, segundo dados recentes, e o desemprego subiu para 7,9%, o maior índice desde 2021.
A redução de subsídios para serviços básicos elevou a parcela de custos suportada pelos consumidores, enquanto setores que cresceram, como energia e mineração, empregaram relativamente pouca mão de obra. A consequência foi a volta do aumento da pobreza, que atingiu cerca de um terço da população, e sinais de desgaste na percepção pública sobre o sacrifício exigido pelas reformas.
Na educação, manifestações de estudantes e professores em outubro de 2026 exigiram mais recursos para universidades públicas; em Buenos Aires, um ato terminou em confronto com a polícia.
Popularidade e cenário político
A popularidade de Milei entrou em queda em 2026. Pesquisa da AtlasIntel de setembro mostrou desaprovação próxima a 70% entre entrevistados de menor renda (com rendimento de até cerca de US$ 650 mensais), enquanto a aprovação ficou abaixo de 30% nesse grupo. No total da população, a desaprovação chegou a 58% contra 38,1% de aprovação. As eleições presidenciais na Argentina estão marcadas para outubro de 2027.
Analistas consultados pelo g1 destacam que a consolidação fiscal profunda gera efeitos sociais no curto prazo, como retração da demanda pela interrupção de obras públicas e redução de repasses. O ajuste também enfrenta limites políticos e eleitorais, que afetaram a acumulação de reservas em dólar e a confiança de parte do mercado.
O uso do caso argentino na campanha brasileira
O debate doméstico no Brasil incorporou o exemplo argentino durante a campanha. O presidente argentino participou do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro no Brasil em 25 de julho; Flávio e integrantes de sua equipe econômica elogiaram a recuperação de indicadores na Argentina e defenderam um programa de cortes no setor público no Brasil, apelidado de “tesouraço” no plano de governo, sem detalhar a execução.
Em contraposição, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva passou a destacar as consequências sociais das medidas de Milei, citando aumento da pobreza, a reforma trabalhista aprovada em fevereiro que flexibilizou jornadas para até 12 horas e mudanças nas regras de indenização por demissão, além de criticar acordos internacionais envolvendo minerais críticos.
O tema apareceu também durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, quando Lula questionou Flávio sobre a intenção de replicar no Brasil o modelo adotado na Argentina; Flávio não respondeu diretamente.
Diferenças estruturais entre Brasil e Argentina
Economistas ouvidos pelo g1 apontam que, embora o equilíbrio das contas públicas esteja no centro do desafio brasileiro, as circunstâncias de partida diferem entre os dois países. Em agosto de 2026, a dívida bruta do setor público brasileiro atingiu R$ 11,05 trilhões, equivalendo a 82,9% do PIB, a maior desde abril de 2021, mas o país tem reservas internacionais consolidadas, menor dolarização e um mercado financeiro doméstico mais profundo do que a Argentina.
Especialistas defendem que o ajuste no Brasil, segundo consenso entre diversas correntes, deveria ser mais gradual e previsível do que o choque promovido em Buenos Aires, para controlar a dívida sem provocar ruptura abrupta na atividade econômica e na renda.
Em síntese, o “Plano Motosserra” virou ferramenta política no Brasil: para aliados de Flávio Bolsonaro, é modelo de correção de desequilíbrios; para a campanha de Lula, ilustra os custos sociais de medidas de austeridade intensa. No debate econômico aparece a pergunta central sobre o tamanho e o ritmo do ajuste que um país está disposto a suportar.
Fonte: G1


