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sexta-feira, setembro 25, 2026

Necromancia digital: IA recria mortos em vídeos e imagens e provoca debate sobre limites éticos

Imagens e avatares gerados por inteligência artificial ressurgem após mortes recentes

O falecimento do ator Sam Neill, anunciado na segunda-feira (13), reacendeu nas redes sociais uma série de imagens e vídeos produzidos por inteligência artificial que representam o artista após a morte. Conhecido por interpretar o paleontólogo Alan Grant em Jurassic Park, Neill apareceu em montagens que o mostram como um “fantasma” entre dinossauros e chegando aos portões do parque em meio às nuvens.

Casos semelhantes ocorreram em maio, quando a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, gerou vídeos em que o jovem é retratado “chegando ao céu”, inclusive em cenários como uma “academia nas nuvens”. Essas recriações alimentaram o debate sobre a manipulação digital de pessoas falecidas e os limites do uso de IA para criar homenagens póstumas.

O fenômeno passou a ser chamado de “necromancia digital”, termo que descreve a prática de usar vozes, imagens e traços de personalidade de mortos para gerar conteúdos produzidos por algoritmos. Especialistas alertam que essa tecnologia pode transformar o luto em produto e criar “fantoches digitais” de quem não tem mais como se defender.

Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath e autora do livro All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data, ressalta a vulnerabilidade dos “restos digitais” — mensagens, áudios e vídeos deixados por quem morreu — diante de ferramentas acessíveis ao público. Segundo ela, plataformas como ChatGPT e Claude podem ser empregadas para converter esses registros em avatares, sem necessidade de conhecimento técnico avançado.

A utilização indiscriminada de tecnologias para “reviver” pessoas também tem provocado reações de parentes. Flávia Christina, filha de Pelé, afirmou recentemente sentir desconforto com vídeos que não condizem com atitudes do pai. Casos de recriações digitais já têm histórico: em Hollywood, cenas de Paul Walker em Velozes e Furiosos 7 foram finalizadas com dublês e computação gráfica em 2015, e em 2016 o ator Peter Cushing foi recriado digitalmente em Rogue One.

No Brasil, a campanha da Volkswagen de 2023 que usou IA para montar um dueto entre Elis Regina, morta há 44 anos, e sua filha Maria Rita gerou polêmica. O caso levou o Conar a abrir investigação sobre possível violação do Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, e um projeto do senador Rodrigo Cunha que visava criar diretrizes para o uso de imagens e áudios de falecidos por IA foi posteriormente arquivado.

Kasket defende a criação de um modelo legal que estenda direitos da personalidade além da morte, limitando o uso de restos digitais para replicação ou personificação. A pesquisadora afirma ainda ter incluído em seu testamento uma cláusula proibindo sua transformação em bot, embora reconheça que isso ainda não tenha força legal no Reino Unido.

Além do impacto sobre a memória dos mortos, especialistas chamam atenção para a exploração dos familiares por empresas do chamado setor de “grief tech” (tecnologia do luto), que oferecem versões virtuais de pessoas falecidas para interação. Episódios polêmicos incluem a entrevista conduzida pelo jornalista Jim Acosta com um avatar de Joaquin Oliver, morto no massacre de Parkland em 2018, e casos em que plataformas como Character.AI passaram a representar vítimas sem o consenso de parentes.

Para Kasket, o luto é uma experiência individual e imprevisível: o que for reconfortante para uns pode ser traumático para outros. A preocupação central é que a indústria tecnológica trate o luto como um “problema” a ser resolvido por produtos digitais, o que pode prejudicar processos naturais de perda.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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