Papa pede cautela com IA e alerta para perda de humanidade
O Papa Leão XIV desembarcou na França em 25 de setembro de 2026 para uma visita de quatro dias e colocou o desenvolvimento da inteligência artificial no centro de sua agenda. No Palácio do Eliseu, sob os tetos dourados, ele advertiu que a IA poderia levar a um cenário em que “um paraíso de máquinas” passe a condicionar e controlar a vida humana, defendendo a necessidade de educação em discernimento ético para evitar a perda da humanidade.
Leão XIV, o primeiro pontífice americano e que tem dedicado parte central de seu pontificado de 16 meses aos riscos da tecnologia, também reafirmou ensinamentos pró-vida da Igreja. Ele criticou iniciativas que permitem o suicídio assistido para pessoas com doenças incuráveis, tema que ganhou impulso na França após aprovação de uma medida nesse sentido por políticos do país dois meses antes.
O pontífice expressou preocupação com tendências que transformam ciência e tecnologia em empreendimentos orientados pelo lucro, citando riscos como manipulação genética, barriga de aluguel, comércio de órgãos e a possibilidade de planejar a própria morte.
Itinerário e recepção
Recebido no aeroporto de Paris-Orly pelo presidente Emmanuel Macron e sua esposa Brigitte, o Papa percorre três cidades durante a visita: Paris, o santuário de Lourdes, no sudoeste, e Metz, na fronteira com a Alemanha. Na sexta-feira, estava prevista uma cerimônia na Catedral de Notre-Dame, restaurada após o incêndio de 2019, marcando a primeira celebração papal no local desde então.
Leão XIV afirmou, em entrevista a jornalistas durante o voo, que trouxe à França “uma mensagem de paz”, mensagem que deve ser reforçada em seus compromissos, incluindo um discurso previsto para segunda-feira, 28 de setembro, no qual deverá apresentar sua visão para o futuro da Europa.
Agenda internacional e posicionamentos
Ainda na sexta-feira, o papa tem compromisso com funcionários da sede da UNESCO, agência da ONU para educação e cultura que enfrenta problemas orçamentários após os Estados Unidos se retirarem em 2025. Em voos e entrevistas, Leão reafirmou apoio à liberdade de imprensa, em reação a tentativas do ex-presidente Donald Trump de restringir o acesso de veículos como a CNN à Casa Branca.
Contexto francês e questões internas da Igreja
A visita ocorre em um país laico, cuja separação entre Igreja e Estado está codificada na lei de 1905, e em um momento de declínio da afiliação católica: relatório do INSEE indica que apenas 25% dos franceses entre 18 e 49 anos se identificavam como católicos, ante 43% dez anos antes. A presença do Papa também se dá em meio a desacordos entre líderes católicos e o governo sobre a inclusão do direito ao aborto na Constituição em 2024 e sobre a recente aprovação da lei que legaliza o suicídio assistido para adultos com doenças incuráveis.
Além disso, Leão XIV terá de enfrentar o desafio de restaurar a imagem da Igreja na França após um relatório de 2021 que apontou que cerca de 330 mil crianças foram abusadas por clérigos e agentes leigos ao longo de sete décadas. Apesar das medidas de compensação e proteção adotadas pelos bispos, vítimas e representantes continuam a cobrar responsabilidade. O papa deve se reunir no domingo, em Lourdes, com sete vítimas francesas de abuso.
O Papa Leão XIV e o presidente Emmanuel Macron fizeram declarações conjuntas no Palácio do Eliseu durante a recepção em Paris.


