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quinta-feira, outubro 15, 2026

Professores relatam sobrecarga, falta de recursos e sensação de desamparo no Dia dos Professores

Professores descrevem rotina exaustiva e ausência de suporte

No 15 de outubro, Dia dos Professores, educadores que comentaram publicações do g1 relataram dificuldades cotidianas em escolas públicas do país, apontando sobrecarga de turmas, escassez de recursos, desrespeito de estudantes e familiares e impacto na saúde mental. Embora existam diferenças entre redes e unidades, as falas convergem para a sensação de que quem cuida de dezenas de crianças e adolescentes não recebe amparo institucional.

Salas superlotadas e acúmulo de atribuições

De Santo André (SP), a professora Janaína Jascone, 43 anos, descreveu a alternância rápida entre várias turmas pela manhã — seis em sequência — e classes com cerca de 49 alunos. Segundo ela, em uma aula de 50 minutos sobram poucos momentos efetivos para o ensino, porque grande parte do tempo é dedicada a mediar conflitos.

Em Roraima, o professor Hudson Araújo, que leciona História na rede estadual, afirmou que a demanda por funções além do ensino cresceu: espera-se do docente papéis semelhantes aos de cuidador, orientador e assistente social, muitas vezes em salas com 40 alunos. Ele também apontou pressão por produzirem atividades em plataformas digitais e cumprimento de metas.

Agressões, indisciplina e perda de autoridade

A pesquisa “O Estado do Professor Brasileiro”, do Instituto Casagrande, levantou desafios por etapa de ensino: na educação infantil, percepção de desvalorização social; no fundamental I, pico de perda de autoridade (93,4% dos docentes relatam esse problema); no fundamental II, maiores índices de esgotamento e intenção de abandonar a profissão; e no ensino médio, aumento de trabalho fora do horário escolar e piora na atenção dos alunos.

O professor Leviston Silveira, de Curitiba, relatou que medidas disciplinares como encaminhar alunos à coordenação nem sempre surtem efeito, pois o comportamento se repete após o retorno à sala. Maria Luzia, docente da educação infantil em Brasília, contou ter sido agredida por um aluno e acusada pela mãe ao reportar o episódio, situação que contribuiu para seu afastamento após licença-maternidade e para o medo de retornar à sala.

Alguns professores disseram sentir-se vigiados e acusados de doutrinar por atividades que tinham caráter reflexivo. Hudson disse que evita tratar temas como nazismo, direitos das mulheres e religião por temor de reações contrárias, apontando que o professor tem sido usado como alvo de críticas sociais.

Falta de estrutura e de materiais

Leviston destaca a ausência de laboratório para aulas de ciências — realidade apontada pelo Anuário Brasileiro da Educação Básica, da ONG Todos Pela Educação, que indica que 80% das escolas públicas no ensino fundamental II não dispõem desses espaços. A professora Janaína relatou ainda falhas em equipamentos e conectividade que prejudicaram um projeto com vídeos, quando não foi possível reproduzir o material por falta de manutenção e cabos funcionando.

Muitos professores recorrem ao próprio bolso para suprir necessidades: Maria relatou ter comprado uma impressora e materiais didáticos porque a escola não autorizava impressão colorida e não fornecia recursos. A inclusão de alunos com deficiências também sofre com a falta de apoio: há turmas em que convivem estudantes com transtorno do espectro autista em níveis elevados de suporte, TDAH e casos de depressão, sem auxiliares na sala.

Remuneração e jornada

O relatório Education at a Glance 2026, da OCDE, mostrou que apenas 22,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental no Brasil se dizem satisfeitos com o salário, um dos piores índices entre os países avaliados. Docentes reclamam da discrepância entre a carga de trabalho — que inclui planejamento, correção e acompanhamento fora do horário em sala — e a remuneração, mesmo para quem cursa pós-graduação ou doutorado.

Reivindicações dos docentes

Valorização e equiparação salarial: cumprimento efetivo do Piso Nacional do Magistério sem mascarar a remuneração com gratificações temporárias; reajustes que aproximem salários aos de outras carreiras com formação superior e pós-graduação.

Redução do número de alunos por turma: diminuir superlotação para possibilitar atenção individualizada e mediação de conflitos.

Autonomia pedagógica: devolução de liberdade de cátedra e flexibilização do uso obrigatório de plataformas digitais que engessam as aulas.

Revisão de práticas de promoção automática: restabelecer autoridade do professor em conselhos de classe para evitar aprovações compulsórias que mascaram índices educacionais.

Participação familiar: maior responsabilidade e acompanhamento dos pais ou responsáveis no desempenho e comportamento dos alunos, formando parceria com a escola.

Suporte à saúde mental: implementação de redes estaduais de apoio psicológico e médico para docentes e oferta de plano de saúde também para contratados temporários; segundo Thiago Zola, diretor de educação da Mind Lab, das escolas que oferecem algum suporte de saúde mental, o benefício raramente contempla o professor.

Estabilidade e direitos para temporários: reduzir precarização dos vínculos e garantir remuneração e manutenção do vínculo durante licenças médicas.

Melhoria da infraestrutura: garantir carteiras adequadas, climatização, fiação funcional e laboratórios antes de ampliar modelos como ensino em tempo integral.

A professora Maria recordou a inspiração inicial para seguir a carreira — a mestra que a ensinou a ler — e afirmou que, apesar do amor pela profissão, hoje tem dúvidas sobre retomar o trabalho diante das condições relatadas pelos colegas.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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