O filme sobre Jair Bolsonaro voltou ao centro das atenções nesta sexta-feira (15) após duas novas apurações: o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou a instauração de investigação preliminar para verificar o envio de emendas parlamentares a organizações não-governamentais vinculadas à produtora do longa, e o site The Intercept Brasil publicou reportagens que apontam o deputado cassado Eduardo Bolsonaro como produtor-executivo e gestor financeiro do projeto.
Na quinta-feira (14), o The Intercept divulgou áudios que teriam Flávio Bolsonaro pedindo recursos a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para custear a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo o veículo, documentos indicam negociação de US$ 24 milhões para financiar o longa — montante que, na época, equivalia a cerca de R$ 134 milhões — e registro de repasses à produção na ordem de US$ 10,6 milhões (cerca de R$ 61 milhões). A Polícia Federal investiga se parte desses valores foi usada para cobrir despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Acusações sobre o papel de Eduardo Bolsonaro
De acordo com o The Intercept Brasil, contratos e mensagens mostram que Eduardo Bolsonaro atuou como produtor-executivo do filme “Dark Horse”, com atribuições sobre a gestão financeira e estratégica do projeto. Um contrato de novembro de 2023, assinado digitalmente em janeiro de 2024, identifica a empresa GoUp Entertainment como produtora e lista Eduardo e o deputado Mário Frias como produtores-executivos.
O material divulgado pelo veículo aponta que as responsabilidades dos produtores-executivos incluíam captação de recursos, preparação de materiais para investidores, busca de incentivos fiscais e decisões sobre orçamento e financiamento. Mensagens reproduzidas nas reportagens mostram orientações atribuídas a Eduardo sobre formas de transferir recursos a partir dos Estados Unidos. Ainda segundo o Intercept, uma minuta de aditivo contratual de fevereiro de 2024 qualificava Eduardo como financiador do filme, autorizando o uso de recursos investidos por ele, mas não há confirmação de que esse aditivo tenha sido formalmente assinado.
O The Intercept também afirma que parte do dinheiro negociado teria sido direcionada a um fundo controlado por aliados de Eduardo, incluindo o advogado Paulo Calixto, responsável por seu processo imigratório nos EUA. A PF apura eventuais vínculos desses repasses com despesas pessoais do parlamentar no exterior. Eduardo Bolsonaro nega ter recebido valores do filme.
Posicionamento de Eduardo Bolsonaro
Em vídeo publicado nas redes sociais nesta sexta, Eduardo Bolsonaro reagiu às reportagens e declarou que as informações visam “assassinar reputações”. Segundo ele, no início do projeto usou recursos próprios obtidos com um curso chamado “Ação Conservadora” para enviar cerca de US$ 50 mil aos Estados Unidos, com o objetivo de contratar um diretor de Hollywood para desenvolver o roteiro enquanto buscavam investidores.
Eduardo afirmou que o contrato inicial previa sua atuação como diretor executivo porque naquele momento assumiu sozinho os riscos financeiros, e que posteriormente, com a entrada de investidores e a formação de fundos nos EUA, deixou a função executiva. Afirmou ainda que passou a ter apenas participação relativa à cessão de direitos autorais e de imagem, negando ter recebido recursos do fundo de investimento criado para a produção e dizendo que o único valor recebido foi o reembolso do aporte inicial. Ele disse também que a produção foi estruturada fora do Brasil por receio de perseguição política e possíveis tentativas de censura.
Investigação sobre emendas parlamentares
O procedimento aberto por Flávio Dino no STF apura envio de emendas a entidades ligadas à produtora do filme, e tramita sob sigilo. O caso chegou à Corte após pedidos de providências apresentados pela deputada Tabata Amaral e pelo deputado Pastor Henrique Vieira, que questionaram a destinação de recursos públicos a organizações conectadas à GoUp Entertainment.
As denúncias apontam que os deputados Marcos Pollon, Mário Frias e Bia Kicis teriam indicado emendas ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura — instituições que, segundo as representações, fariam parte de um mesmo conjunto de ONGs vinculadas à produtora. Após receber os pedidos, o ministro determinou a notificação dos parlamentares para que expliquem a destinação dos recursos. Marcos Pollon e Bia Kicis negaram ter repassado verbas diretamente à produtora.
O oficial de justiça não localizou Mário Frias para a notificação. Diante disso, Flávio Dino pediu à Câmara dos Deputados que informe os endereços residenciais do parlamentar em São Paulo e em Brasília. As reportagens também mencionam que a produtora GoUp Entertainment é controlada por Karina Ferreira da Gama e Michael Brian Davis, e que Karina tem ligação com o Instituto Conhecer Brasil, que recebeu mais de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo e é alvo de investigação do Ministério Público.
As apurações sobre o financiamento do filme envolvem diferentes frentes — reportagens, investigação da Polícia Federal e o procedimento preliminar no STF — e permanecem sob investigação enquanto autoridades e envolvidos seguem sendo notificados e ouvidos.


