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sábado, junho 13, 2026

Terras raras: o que são, por que o Brasil é estratégico e quais desafios para transformar reservas em indústria

Resumo: O avanço tecnológico e a transição para energia limpa colocaram o Brasil no centro de uma disputa internacional por terras raras — um conjunto de 17 elementos químicos essenciais para motores elétricos, eletrônicos e equipamentos de defesa. O país tem a segunda maior concentração desses recursos, mas enfrenta limitações na etapa industrial de processamento. O tema esteve na agenda entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump e mobilizou o Congresso, que aprovou uma política nacional para minerais críticos com um fundo de até R$ 5 bilhões.

O que são terras raras

As chamadas terras raras formam um grupo de 17 elementos da Tabela Periódica: 15 lantanídeos (do lantânio ao lutécio) e os elementos escândio e ítrio, que costumam aparecer associados. O nome é histórico e impreciso: não são literalmente terras nem são tão raras na crosta terrestre. Dependendo do minério, esses elementos surgem juntos nas rochas e têm comportamento químico muito semelhante, o que dificulta a separação industrial, segundo o geólogo Alexandre Magno Rocha (IFRN).

Por que são estratégicas

Especialistas descrevem as terras raras como “vitaminas da indústria tecnológica”: usadas em pequenas quantidades, mas capazes de garantir desempenho superior. Neodímio e praseodímio, por exemplo, compõem superímãs usados em motores de carros elétricos; európio e térbio contribuem para cores e brilho de telas; disprósio e outros elementos pesados são críticos em aplicações de ponta. A estrutura eletrônica desses elementos (elétrons em orbitais 4f) explica o magnetismo potente e a estabilidade mesmo em altas temperaturas, segundo Emiliano Castro de Oliveira (Unifesp) e Sidney Lima Ribeiro (Unesp).

Como aparecem no dia a dia

Terras raras estão em celulares (alto-falantes e motores de vibração), turbinas eólicas (geradores com centenas de quilos de neodímio), equipamentos médicos (ressonância magnética), lasers, sensores e sistemas de orientação de satélites.

Processamento: caro e complexo

O desafio não é encontrar o minério, mas separar os elementos entre si. O processamento envolve:

  • concentração física do minério (em que, segundo Fernando José Gomes Landgraf, de cada mil quilos de minério sobram cerca de um quilo de terra-rara ou menos);
  • ataque químico com reagentes agressivos para dissolver as rochas;
  • remoção de impurezas e controle de radioatividade, especialmente em minerais como a monazita que podem conter tório e urânio;
  • separação individual por extração por solventes, repetida dezenas ou centenas de vezes até alcançar pureza comercial;
  • precipitação e refino final para produzir óxidos comerciais.

O processo demanda consumo massivo de reagentes caros, infraestrutura contínua e tratamento rigoroso de efluentes, o que eleva custos e exige conhecimento técnico que a China levou décadas para dominar. Para elementos pesados e escassos, o preço final reflete o número de estágios de separação — o óxido de lutécio pode chegar a US$ 5 mil a US$ 15 mil por quilo, conforme citado por Sidney Lima Ribeiro.

Impacto ambiental

Além da extração, as etapas químicas geram riscos ambientais: uso intensivo de substâncias tóxicas, geração de resíduos radioativos, alto consumo de água e energia, desmatamento e potenciais contaminações de águas superficiais e subterrâneas.

Por que o Brasil é privilegiado

O país concentra a segunda maior reserva mundial de terras raras porque reúne condições geológicas e climáticas raras: magmas mantélicos e eventos vulcânicos (carbonatíticos) associados a clima tropical e tempo geológico, que favoreceram a concentração desses elementos no solo. A Província Ígnea do Alto Paranaíba, que inclui o Cinturão de Araxá-Catalão em Minas Gerais e Goiás, é apontada por Caetano Juliani (USP) como uma das maiores faixas de jazidas de terras raras pesadas fora da China.

Pesquisas também identificaram argilas iônicas, em que terras raras ficam adsorvidas na superfície da argila e podem ser extraídas com soluções líquidas simples, reduzindo custos de separação, segundo Fernando Landgraf (Poli-USP), embora com impactos ambientais relevantes.

Desafios para agregar valor

Apesar das reservas, o Brasil ainda exporta principalmente minério bruto e não domina a etapa de refino em escala industrial. A China concentra cerca de 90% do processamento mundial, criando uma dependência que especialistas classificam como “escassez política”. O Brasil precisa desenvolver a química fina, purificação e industrialização para evitar exportar matéria-prima barata e importar produtos finais mais caros.

Disputa geopolítica

Com a segunda maior reserva, o Brasil tornou-se objeto de interesse de Estados Unidos e China. A dependência ocidental do refino chinês levou os EUA a buscar fornecedores alternativos e a priorizar segurança nacional em tecnologias que dependem de terras raras. O tema esteve na agenda entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump; Lula manifestou, em 18 de maio, expectativa de que Trump passe a se associar ao Brasil em projetos do setor, e a reunião entre os dois já havia sido marcada para uma quinta-feira, dia 7, na Casa Branca, segundo informações do debate diplomático citado.

Política e investimentos

Para fortalecer a posição brasileira, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência a criação da Política Nacional para a Exploração de Minerais Críticos, que prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para atrair empresas que tragam tecnologia de transformação ao país. O governo federal defende não assinar acordos de exclusividade e assegurar que o subsolo continue sob controle da União, buscando parcerias que envolvam transferência de tecnologia.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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