Quem: Profissionais brasileiros e a consultoria CLA Brasil.
O que: Pesquisa da CLA Brasil, divulgada com exclusividade ao G1, aponta que grande parte dos trabalhadores percebe que empresas aceitam posturas inadequadas de gestores quando estes apresentam desempenho elevado.
Quando e onde: Levantamento divulgado em 18 de agosto de 2026, com respostas de 303 profissionais no Brasil por meio de participação espontânea.
Como: Por meio de questionário aplicado pela consultoria, foram levantadas percepções sobre atitudes de liderança, tratamento a denúncias e existência de políticas internas.
Principais achados
Segundo o estudo, 72,7% dos entrevistados acreditam que comportamentos inadequados são justificados pela alta performance do gestor. Outros 71,8% consideram que abusos são vistos como normais diante da pressão por resultados. A pesquisa também mostra que 87,8% dos respondentes entendem que pessoas pedem demissão ou saem de equipes por não tolerarem a forma como são tratadas por seus chefes.
Os tipos de conduta citados como tolerados incluem gritos, humilhações públicas, ironias constantes, exposição de erros diante da equipe e cobranças exageradas. Para Mariana Rodrigues, especialista em investigações corporativas comportamentais, ver o resultado como um “salvo-conduto” para comportamentos problemáticos é um problema cultural nas organizações. Ela afirma que lideranças que alcançam metas passam a ter mais influência e ficam difíceis de substituir, o que altera a percepção dos demais funcionários sobre regras e tratamento.
Consequências e efeitos
A especialista explica que, embora esse tipo de liderança possa gerar números positivos no curto prazo, os custos aparecem depois, com perda de engajamento, aumento do turnover, afastamentos por problemas de saúde e queda de produtividade. Outro impacto apontado é a redução da confiança: se colaboradores deixam de se sentir seguros para discordar, pedir ajuda ou reportar problemas, a empresa perde informações importantes e pode conviver com uma eficiência aparente.
Denúncias e confiança nas respostas
O levantamento revela receio generalizado em relação a retaliação: 94,5% dos entrevistados acreditam que existe medo de sofrer represálias ao reportar casos de assédio; quase metade considera esse temor relevante. Embora 71,8% digam saber como denunciar, apenas 52,9% afirmaram que confiariam em efetuar uma denúncia atualmente; 29,4% disseram talvez, e 17,6% responderam que não confiariam.
Mariana Rodrigues ressalta que a decisão de comunicar um problema depende da expectativa do denunciador sobre o que ocorrerá após a reclamação. Quando funcionários percebem que denúncias contra pessoas influentes não geram consequências, ou que quem relata é mais prejudicado do que o acusado, a mensagem prática da organização é de risco em vez de proteção.
Políticas e treinamentos
O estudo também mostra que a maioria das empresas possui mecanismos formais: 81,4% dos entrevistados trabalham em locais com políticas sobre assédio e conduta, 74,6% dizem conhecer essas regras, e 67,5% afirmam que suas empresas promovem treinamentos sobre o tema. Ainda assim, o principal desafio identificado pela pesquisa é a confiança dos funcionários de que as normas serão efetivamente aplicadas, inclusive quando envolvem gestores com alta entrega de resultados.
Entre os profissionais que confiam que a empresa trata adequadamente os relatos, 87,5% disseram que denunciariam um caso de assédio. Esse percentual cai para 12,9% entre aqueles que não acreditam na resposta da organização, segundo a pesquisa.
O levantamento conclui que o avanço em políticas e capacitações existe, mas que a aplicação consistente das regras, especialmente diante de líderes considerados estratégicos, é o ponto crítico para que os protocolos funcionem na prática.
Fonte: G1


