A SpaceX abriu capital em momento que amplia o papel do mercado financeiro na competição tecnológica entre Estados Unidos e China. A oferta inicial de ações levantou US$ 75 bilhões (R$ 382,6 bilhões) em Wall Street, recursos que a empresa de Elon Musk pretende aplicar em projetos que vão da rede global de comunicações à inteligência artificial e infraestrutura em órbita.
Quem, o que e por que
A operação de abertura de capital ocorre enquanto as duas maiores economias do mundo disputam liderança em áreas estratégicas para as próximas décadas. A prática evidencia duas abordagens distintas de financiamento tecnológico: o modelo chinês, baseado em planejamento estatal e empresas públicas, e o modelo americano, que combina orçamento governamental com captação privada no mercado financeiro.
Financiamento público e parcerias nos EUA
O financiamento governamental continua relevante nos EUA. A Nasa, criada em 1958, recebeu em 2026 um orçamento de US$ 24,4 bilhões (R$ 124,5 bilhões), cerca de 0,35% dos gastos federais, parte do qual é repassada a empresas privadas via contratos. Projetos como Artemis II contaram com fornecedores como Boeing, Northrop Grumman e Lockheed Martin.
O papel crescente do setor privado
Nos últimos anos, entretanto, firmas privadas passaram a buscar recursos no mercado para ampliar ambições próprias. A SpaceX é o exemplo mais visível desse movimento: além de lançar foguetes, a companhia construiu a constelação Starlink, assumiu contratos militares e integrou ativos ligados à inteligência artificial. Conforme Álvaro Machado Dias (Unifesp), iniciativas como o Starship, centros de processamento em órbita e infraestrutura lunar demandam escala de investimento difícil de sustentar apenas por investidores tradicionais, e a empresa já atua como infraestrutura estratégica para interesses americanos.
Competição direta com a China
Do outro lado, a China segue um modelo concentrado no Estado, com metas públicas e empresas estatais financiadas para ampliar sua presença espacial. A disputa se estende da exploração lunar ao controle de redes de comunicações e à capacidade de processamento para inteligência artificial — frentes que, segundo Diogo Cortiz (PUC-SP), colocam a SpaceX em posição singular.
Dados sobre lançamentos e constelações
Levantamento do astrofísico Jonathan McDowell mostra que, em 2025, a China realizou 92 lançamentos orbitais, contra 181 dos EUA. Do total americano, 170 missões foram da SpaceX. Em termos de satélites ativos, havia cerca de 14,1 mil equipamentos no planeta no fim do ano passado, dos quais aproximadamente 10 mil integravam a Starlink. Em 2025, os EUA lançaram cerca de 3,4 mil satélites de comunicação de grande porte — 3.267 deles destinados à Starlink — enquanto a China colocou em órbita 195 satélites desse tipo.
Projetos chineses e alcance geopolítico
Pequim aposta em grandes constelações como a Guowang, prevista para aproximadamente 13 mil satélites, e a Qianfan, planejada com mais de 1.296 unidades. Além da capacidade industrial, a China combina preços subsidiados e relações diplomáticas ampliadas pela iniciativa Cinturão e Rota, que reúne mais de 150 países, com forte presença na África, Ásia e América Latina. Ainda assim, restrições geopolíticas e regras de exportação em mercados ocidentais dificultam a expansão comercial chinesa.
Analistas consultados também destacam que, em termos de reutilização e comercialização para mercados ocidentais, o setor comercial chinês está atrás da SpaceX, numa defasagem estimada em cinco a dez anos, segundo Franco Granda (PitchBook). A competição tende a se intensificar com os programas lunares: a SpaceX prevê missão lunar não tripulada em 2027, enquanto Pequim planeja levar astronautas à superfície lunar até 2030.
Fonte: G1


