Relatório internacional identifica exposição generalizada a pesticidas na cafeicultura
Um relatório internacional organizado pela ONG Coffee Watch alerta para o uso intensivo de pesticidas na produção de café e para os riscos à saúde e ao meio ambiente associados a essa prática. O estudo, intitulado “Poison in Your Coffee” (“Veneno no seu café”), compilou centenas de pesquisas científicas e destaca principalmente a exposição ocupacional de trabalhadores rurais envolvidos na cadeia produtiva.
Segundo a Coffee Watch, cerca de 25 milhões de produtores e perto de 100 milhões de trabalhadores atuam na cadeia global do café. Em muitas regiões, o acesso a treinamento e a equipamentos de proteção é insuficiente, o que resulta em contato frequente com produtos químicos capazes de provocar intoxicações agudas — como náuseas, vômitos, tontura, irritações na pele e problemas respiratórios — além de efeitos crônicos.
O relatório identificou 159 substâncias ativas autorizadas para uso em lavouras de café nos principais países produtores. Entre essas substâncias estão compostos classificados como potencialmente cancerígenos, neurotóxicos ou tóxicos para a reprodução. Estima-se que entre 59% e 60% dos pesticidas aplicados na cafeicultura sejam proibidos na União Europeia por representarem riscos excessivos à saúde e ao meio ambiente. Exemplos citados incluem o clorpirifós, banido na UE desde 2020 por possíveis efeitos no desenvolvimento neurológico infantil, e o imidacloprido, ligado ao declínio de polinizadores como as abelhas.
O estudo aponta que cerca de 14% dos pesticidas usados na cafeicultura são classificados como cancerígenos comprovados ou prováveis, e quase dois terços apresentam potencial de toxicidade reprodutiva. Pesquisas referenciadas relacionam exposição prolongada a certos pesticidas a maior risco de doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson, além de queda de fertilidade e efeitos no desenvolvimento de fetos expostos durante a gestação.
No caso do Brasil, o maior produtor e exportador de café do mundo, o relatório destaca frequentes aplicações de pesticidas sem proteção adequada por parte de trabalhadores rurais. Estudos em regiões cafeeiras de Minas Gerais registraram intoxicações ocupacionais recorrentes e a presença de resíduos de dezenas de pesticidas em cursos d’água próximos a áreas de produção, levantando preocupações sobre contaminação ambiental e impactos no abastecimento de água de comunidades locais. Entre 2002 e 2023, o país perdeu aproximadamente 737 mil hectares de cobertura florestal associados à expansão da cafeicultura, especialmente no Cerrado.
Em análises de comércio internacional, entre 2020 e 2024 os pesticidas foram a principal categoria de risco apontada pelo sistema europeu de alerta rápido para alimentos no setor do café. Dados da organização PAN Europe indicam que 23% das amostras de café avaliadas na Europa continham resíduos de pesticidas proibidos pela legislação da União Europeia. Os pesquisadores ressaltam ainda que muitas amostras apresentam combinações de resíduos, cujos efeitos cumulativos são pouco conhecidos.
O relatório também questiona a eficácia de determinadas certificações de sustentabilidade, observando que selos ambientais e sociais podem avançar, mas não asseguram por si só a ausência de pesticidas nem garantem proteção completa aos trabalhadores. Como alternativas, a Coffee Watch cita sistemas agroflorestais e práticas agroecológicas que, segundo o estudo, mostram redução significativa na dependência de pesticidas enquanto preservam biodiversidade e melhoram qualidade do solo.
Fonte: G1


