Japão avança na Copa e carrega histórico econômico marcado por crescimento baixo
A seleção do Japão, adversária do Brasil, avançou à segunda fase da Copa do Mundo após empatar com a Suécia, e terá seu jogo transmitido pela Band. Além do interesse esportivo, o país chamou atenção por um quadro econômico que persiste há cerca de 30 anos: alta capacidade tecnológica e inovadora combinada com crescimento modesto e desafios estruturais.
Pesquisadores e economistas associam a origem desse cenário ao estouro das bolhas imobiliária e de ações no fim dos anos 1980 e início dos 1990, segundo Jacob Funk Kirkegaard, do Peterson Institute for International Economics (PIIE). A partir desse ponto, o Japão passou a conviver com longos períodos de baixo crescimento e inflação muito baixa, em alguns momentos chegando à deflação. Esse conjunto de características é conhecido entre especialistas como “Japanificação”.
Nas últimas temporadas econômicas houve sinais de alteração: a inflação voltou a se aproximar da meta do Banco do Japão (BoJ), permitindo o fim da política de juros negativos. A taxa básica de juros está atualmente em 1% ao ano. Em entrevista pública, Kirkegaard apontou que o Japão pode estar diante da primeira janela desde a aceleração do envelhecimento populacional em que pressões internas sobre salários e preços tenham um caminho plausível para se sustentar.
O país mantém indicadores paradoxais. Tem uma das menores taxas de desemprego do mundo, em torno de 2,5%, e um PIB per capita estimado pelo Fundo Monetário Internacional em cerca de US$ 35,7 mil. Mesmo assim, o crescimento médio da economia permanece baixo, perto de 1% ao ano ao longo das últimas décadas.
O Japão segue entre as nações mais inovadoras: figura entre os primeiros colocados em rankings de inovação e lidera métricas ligadas à sofisticação industrial e à cooperação entre universidades e empresas. Além disso, destina uma parcela significativa do PIB à pesquisa e desenvolvimento — 3,44% do PIB, equivalente a aproximadamente US$ 145 bilhões.
A demografia é um fator central do enigma. Estima-se que quase 30% da população tenha mais de 65 anos, enquanto a taxa de fertilidade permanece baixa, cerca de 1,2 filho por mulher. Com menos pessoas em idade ativa, reduz-se o potencial de crescimento e aumentam as pressões sobre gastos públicos, especialmente com aposentadorias e saúde. A dívida pública segue muito elevada e deverá permanecer acima de 200% do PIB, segundo projeções do FMI.
Para lidar com o encolhimento do mercado interno, empresas japonesas ampliaram investimentos no exterior e passaram a gerar receitas crescentes com propriedade intelectual, pesquisa e desenvolvimento e dividendos de subsidiárias internacionais.
No mercado interno, o setor de serviços concentra cerca de 70% do valor agregado da economia e enfrenta dificuldade para contratar trabalhadores. A presença crescente de profissionais com mais de 60 anos em atividades como serviços e construção reflete a adaptação do mercado de trabalho às mudanças demográficas.
O economista Kyoji Fukao, da Universidade Hitotsubashi, ressalta que os ganhos de produtividade concentraram-se na indústria manufatureira, enquanto muitos serviços voltados ao mercado doméstico evoluíram mais lentamente. Ele aponta ainda que a segurança no emprego e os custos elevados para abrir e fechar estabelecimentos inibiram a recomposição do setor de serviços e a difusão de práticas de gestão mais eficientes.
O quadro econômico do Japão, portanto, combina alta complexidade produtiva e inovação com limitações de crescimento e desafios fiscais e demográficos, elementos que seguem moldando a trajetória do país.
Fonte: G1


