Baterias seguem como ponto central de questionamentos sobre veículos elétricos
Quem e o quê: A discussão sobre os riscos e impactos das baterias de veículos elétricos — envolvendo incêndios, extração de minerais e poluição — ganhou novo fôlego em meio ao avanço das vendas desses automóveis. As baterias continuam sendo o componente mais caro e um dos principais pontos vulneráveis dos carros elétricos.
Quando e onde: A demanda por carros elétricos cresceu de forma expressiva nos últimos meses de 2026. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), as vendas na Austrália subiram mais de 150% em abril em comparação ao mesmo mês de 2025. Na região Ásia-Pacífico, excluindo a China, as vendas aumentaram 80% nos três primeiros meses de 2026. Na América Latina, houve cerca de 75% mais veículos elétricos vendidos, e na Europa as vendas cresceram quase um terço.
Por que isso importa: Fatih Birol, diretor-executivo da AIE, disse em maio que as vendas recordes de veículos elétricos estão “proporcionando algum alívio em meio ao maior choque de oferta de petróleo da história” e que a queda nos preços das baterias deve impulsionar ainda mais o setor.
Riscos de incêndio e desgaste de estradas: Críticos apontam que baterias de íons de lítio podem pegar fogo e que esses incêndios são mais difíceis de combater que os de veículos a combustão. Especialistas citados observam, contudo, que carros com motor a combustão têm maior propensão a incêndios. Também há acusações de que o peso das baterias contribui para danos em rodovias, tese contestada por especialistas que indicam caminhões de grande porte como principais responsáveis pelo desgaste das vias.
Mineração e cobalto: Programas jornalísticos e reportagens recentes, como a investigação do programa Spotlight, exibida na Austrália em março, destacaram condições precárias e poluição em minas de cobalto na República Democrática do Congo, incluindo trabalho infantil em locais geridos por empresas chinesas. A reportagem apresentou o cobalto como elemento-chave em muitas baterias de armazenamento, sugerindo um “custo mortal” na transição para tecnologias limpas.
Críticas a essa abordagem lembram que a composição química das baterias automotivas mudou: muitas fabricantes adotaram baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP), que não exigem cobalto. David McElrea, do Smart Energy Council da Austrália, questiona por que a investigação focou em baterias de veículos elétricos quando eletrônicos pessoais também contêm cobalto, e afirma que a indústria vem eliminando o metal da maioria das baterias automotivas. O professor Neeraj Sharma, da Universidade de Nova Gales do Sul, acrescenta que químicas alternativas, como baterias de íons de sódio, estão surgindo e reduzindo a dependência do lítio e de outros minerais críticos.
Debate sobre oferta de minerais: O Fraser Institute, think tank canadense, afirmou em 2023 que seriam necessárias cerca de 400 novas minas para suprir a demanda futura por minerais críticos. Kenneth P. Green, autor do estudo, alertou para o risco de oferta insuficiente diante da expansão dos veículos elétricos. Em contrapartida, o relatório Global EV Outlook 2026 da AIE conclui que as reservas geológicas conhecidas são suficientes para a demanda de longo prazo, mesmo no cenário de eliminação gradual da maioria dos carros movidos a combustíveis fósseis.
A AIE também observa que a concentração da produção de baterias na China cria vulnerabilidades nas cadeias de suprimento e prevê que o avanço de baterias de íons de sódio e o aumento da reciclagem de minerais deverão reduzir a pressão sobre materiais críticos.
Origem das críticas: ataque direcionado ou preocupação legítima? Há divergência sobre se as críticas aos veículos elétricos são coordenadas por interesses pró-combustíveis fósseis. McElrea fala em “ataque direcionado”, enquanto Vlado Vivoda, especialista em minerais críticos e segurança energética da Universidade de Queensland, afirma que muitas das preocupações sobre extração, condições de trabalho, impactos ambientais e concentração da produção são reais e não necessariamente parte de uma campanha coordenada. Philip Newell, da coalizão Climate Action Against Disinformation, defende que enfrentar injustiças na mineração passa por empoderar comunidades afetadas e aplicar com rigor leis ambientais e trabalhistas.
Vivoda ressalta que desacreditar Tecnologias limpas tem relação com a atual crise energética global e que alegar que essas tecnologias são tão ruins quanto o sistema baseado em combustíveis fósseis pode atrasar a transição. Para ele, a resposta adequada é comparar sistemas de forma honesta e melhorar a gestão das novas cadeias de suprimento.
Fonte original: G1


