TRANSMISSÃO: Band
Assistentes pessoais lidam com tarefas que vão do trivial ao excêntrico
Giuliana Passarelli, paulistana de 31 anos, descreve a rotina de quem gerencia a vida de um empresário milionário de 35 anos: ela organiza desde a escolha de roupas caras até a gestão de compromissos pessoais e burocracias. A assistente relata que já foi acionada para ir à França às pressas para tratar da compra de uma Ferrari de edição especial, cuidando da logística e da documentação para trazer o carro ao Brasil.
Cruzar fronteiras para resolver demandas do patrão é apenas parte do trabalho, que não tem horário fixo. Giuliana diz ser responsável por marcar consultas, levar o cachorro ao veterinário, pagar contas e antecipar compras cotidianas — tarefas que, segundo ela, fazem com que o chefe “não precise se preocupar” com itens básicos do dia a dia. Nas redes sociais, ela se autodenomina “babá de milionário”, apelido que nasceu de uma brincadeira interna e que viralizou no TikTok. Seu perfil acumula mais de 5 milhões de curtidas e cerca de 140 mil seguidores, onde publica bastidores da função.
A rotina também inclui episódios inusitados: após ler sobre a moda entre alguns ricos por criar galinhas anãs, a raça serama — originária da Malásia e com cerca de 15 cm de altura em média — foi adquirida pelo empresário. As aves custaram R$ 3 mil cada e hoje vivem no sítio de uma funcionária, mas Giuliana segue como intermediária, recebendo e repassando fotos e atualizações.
A profissão, mais formalmente conhecida como personal assistant, é vista por especialistas como uma evolução de funções tradicionais em lares ricos, como governantas e mordomos. Cristina Proença, da ESPM, afirma que a concentração de riqueza tem ampliado a demanda por serviços ultraespecializados e que o principal “produto” procurado é tempo: contratar esse staff equivale a comprar disponibilidade para dedicar a outras atividades.
O mercado de luxo no Brasil, que faturou R$ 74 bilhões em 2022, projeta, segundo a consultoria Bain & Company, crescer para R$ 150 bilhões até 2030, impulsionado por famílias com patrimônio acima de US$ 1 milhão. O governo federal estima em 141,4 mil o grupo dos “super-ricos” no país. Mudanças recentes na lei, ao isentar do Imposto de Renda quem ganha até R$ 5 mil, colocaram como alta renda faixas acima de R$ 50 mil por mês.
Profissionais do setor relatam que o cargo exige discrição, rede de contatos e flexibilidade para imprevistos. Agências especializadas, como a boutique de recrutamento dirigida por Luciana Xavier, fazem seleção com checagem de antecedentes, referências e histórico financeiro. Para assistentes pessoais, a empresa aponta necessidade de conhecimento do universo do luxo e repertório cultural. A remuneração média citada por Xavier varia entre R$ 15 mil e R$ 30 mil, dependendo das responsabilidades; contratos podem ser CLT ou como pessoa jurídica. Giuliana, que trabalha com vínculo CLT, não revela salário, mas afirma que a posição lhe dá segurança financeira.
Outro profissional que atua no segmento, João Victor Marques, de 29 anos, relatou ter trabalhado em Mônaco, Dubai, Londres e Zurique e conta episódio de jantar a bordo de um iate de Leonardo DiCaprio ancorado em Mônaco. Hoje, ele é assessor pessoal de uma empresária local e diz que o cargo pode oferecer ascensão social e acesso a um estilo de vida glamouroso.
Apesar dos benefícios, ambos os assistentes mencionam conflito com a desigualdade social observada no Brasil; Giuliana cita o World Inequality Report 2026 ao afirmar que o país mantém níveis de desigualdade entre os mais altos do mundo. Ela diz não querer julgar gastos dos empregadores e trata suas postagens na internet como entretenimento sobre um universo distante para parte do público.
O trabalho exige organização, jogo de cintura, inglês fluente em muitos casos e uma extensa rede de relacionamentos, desde gerentes de aeroportos de aviação executiva até fornecedores de luxo, apontam recrutadores e professores da área.
Com informações de G1

