TCC viraliza nas redes por título que faz referência a dois casos de grande repercussão
Um trabalho de conclusão de curso (TCC) em Direito chamou a atenção nas redes sociais após uma foto da autora no dia da defesa ser amplamente compartilhada. A expressão que abre o título do estudo — “Antes Elize do que Eliza” — foi reproduzida em perfis no Instagram, no TikTok e no X, e provocou reações diversas, incluindo acusações de que o trabalho faria apologia ao crime.
A autora do TCC é Clara Souza, de 22 anos, aluna da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em Sobral (CE). Em entrevista ao g1, Clara explicou que a frase em destaque está entre aspas no título e não representa uma afirmação pessoal sua, mas sim um fenômeno que ela observa circulando nas redes. A estudante disse ter recebido críticas de pessoas que não leram a monografia e a acusaram de concordar com atos criminosos.
O título faz referência a dois casos conhecidos no país: o assassinato e esquartejamento de Marcos Matsunaga por sua então companheira Elize Matsunaga — crime que teve grande repercussão — e o homicídio de Eliza Samudio, ligado ao ex-goleiro Bruno. A expressão reproduzida nas redes sintetiza, segundo quem a usa, uma comparação entre a vítima que buscou ajuda institucional sem obter proteção e a ré que reagiu de forma extrema e sobreviveu ao conflito.
Em mais de 130 páginas, o TCC investiga as razões pelas quais esse tipo de narrativa e a desconfiança nas instituições vêm se espalhando. A pesquisa analisa a “escandalização midiática” do processo penal e argumenta que, em alguns casos, a imprensa e perfis em redes sociais acabam promovendo um julgamento paralelo, reduzindo a complexidade jurídica a narrativas simplistas de heróis e vilões e deixando de lado garantias fundamentais como a presunção de inocência.
O estudo de Clara aponta também para a operação conjunta do sistema de justiça e da imprensa sob a lógica da “vítima ideal”, que impõe padrões de comportamento para que mulheres recebam credibilidade ou compaixão. Quando essas mulheres não se enquadram nesse padrão, sofrem, segundo a pesquisadora, uma dupla condenação: a penal e a moral.
Na comparação das trajetórias de Eliza e Elize, o trabalho destaca semelhanças como origens humildes, estigmas sociais vinculados ao mercado do sexo e relacionamentos com homens de maior poder econômico, fatores que teriam contribuído para a exposição pública de suas vidas pessoais.
O TCC recebeu nota máxima da banca, que sugeriu transformar a pesquisa em projeto de mestrado. Clara atua hoje na assessoria jurídica da Defensoria Pública do Ceará, no núcleo de enfrentamento à violência doméstica, e relata ter recebido mensagens de apoio de mulheres de diferentes regiões do país que leram a monografia.
Fonte: G1


