Wesley e Joesley Batista voltam a ocupar destaque político e financeiro
TRANSMISSÃO: Band | Record
Wesley Batista (54) e Joesley Batista (53), donos da JBS, atravessaram os desdobramentos da Operação Lava Jato, fizeram acordos de colaboração com o Ministério Público e, nos últimos anos, reconquistaram influência pública e força no mercado global. Cada um tem fortuna estimada em US$ 5,7 bilhões (R$ 29 bilhões), segundo os dados citados.
O processo que levou os irmãos à mira da investigação ganhou um momento decisivo em 2017, quando um advogado da defesa enviou por engano ao Ministério Público Federal um áudio que não deveria integrar a delação. O arquivo continha conversas internas que, segundo as autoridades à época, indicavam omissão de informações e tentativas de influenciar o procurador-geral. Pouco depois, veio à tona uma gravação em que Joesley aparenta dialogar com o então presidente Michel Temer, trecho que motivou forte repercussão política.
Em 2017 os irmãos firmaram acordo de delação premiada em que relataram pagamentos de propina a agentes públicos, incluindo a menção de repasses que, segundo as declarações, somaram cerca de US$ 200 milhões distribuídos entre quase 1,9 mil políticos. Joesley afirmou que parte desses pagamentos envolveu o BNDES e citou valores destinados a intermediários e a autoridades, entre elas um repasse de US$ 4,6 milhões ao então presidente, conforme seu depoimento. O BNDES negou as acusações.
O episódio das gravações e a posterior divulgação de negociações financeiras realizadas pelos irmãos nos dias que antecederam o escândalo — inclusive a venda de US$ 90 milhões em ações da JBS — levaram à prisão preventiva por suspeitas de uso de informação privilegiada e manipulação de mercado. Eles passaram cerca de seis meses em prisão preventiva e, depois, tiveram a detenção convertida em medidas cautelares, com restrições à saída do país e impedimento de ocupar cargos na empresa.
No âmbito corporativo, a JBS pagou multa recorde de US$ 3,2 bilhões parcelada ao longo de 25 anos em razão do acordo de leniência. Mesmo assim, a companhia manteve expansão global intensa. A trajetória do grupo inclui marcos como a compra da Swift-Armour, da Argentina, por US$ 200 milhões em 2005 (com empréstimo do BNDES de US$ 80 milhões), a abertura de capital em 2007 e a aquisição da americana Swift & Co. por US$ 1,4 bilhão no mesmo ano, quando o BNDES subscreveu US$ 500 milhões em novas ações.
Entre 2005 e 2014, a empresa realizou aquisições avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões e, em 2014, o BNDES era o maior acionista individual, com quase 35% das ações. Em 2006 a JBS já operava 21 unidades de processamento no Brasil e cinco na Argentina, com capacidade de abater 20 mil cabeças de gado por dia; em 2011 os irmãos passaram a comandar cerca de 22% do abastecimento de carne bovina dos Estados Unidos.
A saída do foco judicial coincidiu com recuperação econômica da companhia. Em março de 2018, após a libertação de Joesley, as ações da JBS subiram; no início de 2019, o aumento da demanda chinesa elevou lucros no Brasil em quase 116%. Em 2019, ambos figuraram na lista de bilionários da Forbes com US$ 1,3 bilhão cada. Em 2023 a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) os absolveu das acusações de insider trading e, em 2024, eles retornaram ao conselho de administração da empresa.
A abertura de capital na Bolsa de Valores de Nova York ocorreu em 2025, após resistência regulatória nos EUA. A estreia na NYSE aconteceu dois dias depois da divulgação de que a Pilgrim’s Pride, subsidiária da JBS, foi maior doadora ao comitê de posse de Donald Trump, com contribuição de US$ 5 milhões; a JBS negou qualquer tratamento preferencial. A estreia elevou a fortuna de cada irmão em cerca de US$ 200 milhões naquele dia.
Além dos episódios judiciais e financeiros, a JBS enfrentou investigações e sanções relacionadas a condições trabalhistas, direitos humanos e práticas ambientais. Em 2025 a empresa pagou multa de US$ 4 milhões por investigação sobre trabalho infantil em unidades nos estados americanos do Colorado, Minnesota e Nebraska. Em 2017 houve relatos de compra de gado ligado a práticas análogas à escravidão; no mesmo ano a JBS pagou multa de US$ 7,7 milhões por questões ligadas ao desmatamento, e em 2024 foi novamente sancionada em operação contra compra de gado oriundo de desmatamento ilegal. Em 2017 e 2018, denúncias envolvendo maus-tratos a animais em fornecedores da Pilgrim’s Pride motivaram apurações e, segundo a empresa, rompimento de contratos com fornecedores implicados. Em 2024, o Procurador-Geral de Nova York moveu ação contra a JBS por suposto descumprimento de compromissos climáticos anunciados para 2040; a empresa contestou a alegação.
As origens do grupo remontam a 1953, quando José Batista Sobrinho abriu um açougue em Anápolis (GO) e depois transferiu-se para Brasília. Em 1972 a empresa foi renomeada Friboi. Wesley e Joesley, nascidos com dez meses de diferença, deixaram a escola aos 17 anos para trabalhar nos frigoríficos da família. A empresa mudou sua sede para São Paulo em 2004, e a partir de meados da década de 2000 iniciou expansão internacional acelerada.
O relato sobre a trajetória dos irmãos e da companhia foi abordado na série Good Bad Billionaire, do BBC World Service, e teve adaptação pela BBC Mundo, conforme as referências do material original.
Fonte: G1


