Unitree anuncia oferta pública e crescem tensões entre China e EUA sobre robótica
A fabricante chinesa Unitree Robotics abriu em 10 de agosto as inscrições para sua oferta pública inicial na Bolsa de Valores de Xangai. A operação, a primeira do setor de robôs humanoides e quadrúpedes na China, pode avaliar a empresa em mais de 50 bilhões de yuans (R$ 37,7 bilhões) e deve injetar capital privado em uma companhia conhecida por produzir robôs sofisticados a preços competitivos.
O movimento da Unitree ocorre numa conjuntura de maior atrito com os Estados Unidos. No fim de julho, Washington anunciou a proibição da entrada no país de novos robôs humanoides e quadrúpedes fabricados no exterior, alegando “riscos inaceitáveis” à segurança nacional. A Comissão Federal de Comunicações (FCC) afirmou que esses robôs podem coletar dados que seriam explorados para vigiar americanos, ampliar capacidades de serviços de inteligência estrangeiros ou permitir controle remoto das máquinas.
Autoridades americanas também apontam preocupações sobre o uso dual da tecnologia — aplicações civis e militares — e citam vulnerabilidades já demonstradas em equipamentos da Unitree, que, segundo pesquisadores, permitiriam a invasores assumir o controle via comando de voz e, em seguida, manipular outros robôs. Em junho, o Pentágono incluiu a Unitree e outras empresas chinesas de tecnologia em uma lista de companhias com supostos vínculos às Forças Armadas chinesas; robôs da Unitree foram utilizados em exercícios militares.
Relativos à dimensão do mercado, o banco Barclays estimou que a China foi responsável por 85% dos usos de robôs humanoides em 2025. Em 2025, fabricantes chineses venderam quase 11,6 mil robôs humanoides, enquanto empresas americanas comercializaram apenas algumas centenas de unidades. A Omdia aponta que seis empresas chinesas estão entre as dez maiores do setor. O Bank of America projetou, em março, cerca de 90 mil unidades embarcadas até o fim de 2026.
O debate comercial e estratégico já levou a retaliações: a China criticou as medidas dos EUA como protecionismo e, dias após o anúncio da Casa Branca, adotou controles sobre exportações de drones aos EUA e proibiu negócios com seis entidades americanas. Washington, por sua vez, já impôs restrições semelhantes no passado a drones e painéis solares chineses e aplica uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos chineses.
Representantes do setor americano e analistas divergiram sobre os efeitos da proibição. Executivos do setor de robótica dos EUA defenderam apoio governamental para fortalecer a indústria doméstica, citando empresas como Figure AI, Tesla (Optimus) e Agility Robotics. Críticas apontaram, porém, que a medida pode reduzir o acesso a plataformas de baixo custo usadas para pesquisa e desenvolvimento.
Projeções de mercado variam. O Barclays avalia o setor atualmente entre US$ 2 bilhões e US$ 3 bilhões (R$ 10,2 bilhões a R$ 15,3 bilhões) e projeta que ele poderia alcançar US$ 200 bilhões (R$ 1 trilhão) até 2035 no cenário otimista. Elon Musk estimou que o robô Optimus poderia atingir vendas de longo prazo que, em sua visão, chegariam a US$ 10 trilhões (R$ 51 trilhões). No curto prazo, espera-se que os humanoides desempenhem tarefas repetitivas e fisicamente exigentes em fábricas e armazéns; a atuação futura pode se estender a saúde, assistência a idosos e serviços domésticos.
Fonte: G1


