Empresa de IA se tornou referência em integração de dados e passa a atuar em saúde, migração e defesa
A Palantir, empresa americana de tecnologia especializada em análise de dados por inteligência artificial, ampliou seu papel junto a órgãos governamentais e forças militares, o que tem gerado críticas sobre responsabilidade e riscos de abusos. A companhia é apontada por especialistas como referência em softwares que coletam, organizam e interpretam grandes volumes de informação, utilizados tanto por agências de inteligência quanto por setores civis.
Fundada a partir das experiências de executivos do PayPal, a origem técnica da Palantir remonta a um software antifraude chamado Igor, desenvolvido por Max Levchin e colegas. Após os atentados de 11/09/2001, Peter Thiel passou a articular o uso dessa tecnologia para superar falhas de integração entre agências, segundo relatos sobre a gênese da empresa. Thiel recrutou Alex Karp para liderar a companhia; Karp tem formação em filosofia e se tornou CEO.
O crescimento da Palantir foi impulsionado por investimento da In-Q-Tel, fundo ligado à CIA, e pelo trabalho conjunto entre engenheiros da empresa e analistas de agências de inteligência. Essa colaboração abriu caminho para contratos com órgãos como CIA, FBI e NSA, e também com entidades de saúde (CDC) e migração (ICE). O ICE, por exemplo, usa as ferramentas para identificar imigrantes procurados para detenção e deportação.
A empresa figura em operações de alta visibilidade: contribuiu para localizar o esconderijo de Osama Bin Laden em 2011, participou de processos relacionados à retirada de tropas americanas do Afeganistão em 2021 e fornece o sistema Maven, empregado para identificar alvos militares no Irã. A Palantir também foi contratada para projetar o software do chamado “Domo de Ouro”, iniciativa do segundo mandato de Donald Trump para defesa antiaérea.
Além do setor público, a Palantir presta serviços a empresas como Airbus, Panasonic, Merck e à escuderia Ferrari na Fórmula 1. Seus clientes internacionais incluem Reino Unido, Ucrânia, França, Canadá, Alemanha, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Israel, onde houve contato com o Mossad desde meados dos anos 2000. A empresa afirma não vender tecnologia a adversários geopolíticos, como China ou Rússia.
O CEO Alex Karp tornou pública sua visão sobre tecnologia e segurança no livro A República Tecnológica (2025). Trechos divulgados pela empresa causaram polêmica ao defender superioridade tecnológica e posições consideradas por críticos como alinhadas a um projeto de preservação do “Ocidente”. Parlamentares e especialistas qualificaram algumas passagens como alarmantes, enquanto a Palantir sustenta que seus produtos devem ser regulados por clientes e órgãos governamentais.
Em defesa da tecnologia, Louis Mosley, diretor da Palantir no Reino Unido e Europa, afirmou que o software exige sempre uma decisão humana para ação. Críticos, porém, apontam riscos: a velocidade e a escala das análises podem levar a erros de confirmação e inclusão acidental de alvos civis, segundo a professora Elke Schwarz, da Queen Mary University of London. O colunista Michael Steinberger, autor de livro sobre a empresa, questiona o grau de responsabilidade da Palantir diante de possíveis abusos e crimes de guerra cometidos com a tecnologia.
Atualmente, a Palantir é uma das empresas de IA mais valiosas do mundo, com avaliação superior a US$ 380 bilhões (cerca de R$ 1,9 trilhão). O crescimento financeiro e a expansão de contratos militares e civis têm alimentado o debate sobre supervisão, limites de uso e responsabilidade da companhia pelo emprego de suas ferramentas.


