Resumo
Falta de registros e opacidade das plataformas impedem que o Brasil tenha números consolidados sobre acidentes de entregadores de aplicativos, mostram relatos de trabalhadores e investigações do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério da Saúde.
Quem e o que
O entregador Silvio Luiz Pinheiro sofreu uma queda enquanto pedalava em São Paulo após o freio dianteiro da bicicleta elétrica travar na ciclovia da Avenida Sumaré. Ele levou o equipamento alugado até a central em Pinheiros, mas diz que o atendimento limitou-se à conferência da devolução. A queda provocou lesões na clavícula e no cotovelo e o obrigou a interromper temporariamente as entregas.
Quando e onde
O episódio ocorreu em São Paulo; Silvio relata ainda que, por precaução, passou a preferir trabalhar à noite, após as 20h, quando encontra menos trânsito. Em dias favoráveis, estende a jornada até meia-noite ou até uma e duas da manhã por bairros como República, Santa Cecília e Barra Funda.
Como e por quê os dados faltam
Especialistas e procuradores apontam duas barreiras principais para quantificar acidentes de entregadores em serviço. A primeira é a insuficiência das fichas de atendimento em saúde: sistemas como o Sinan historicamente não identificavam se a vítima estava trabalhando para uma plataforma ou se estava em jornada no momento do acidente. Em abril de 2025, o Ministério da Saúde publicou nota técnica orientando a inclusão dessa informação, mas, segundo o MPT, ainda não há compilação de dados nacional.
A segunda barreira é a resistência das empresas de aplicativo em fornecer informações operacionais ao MPT. O órgão afirma não ter acesso a números sobre quantos trabalhadores estão ativos, quantas horas trabalham por dia e quantos foram atendidos por acidentes enquanto estavam conectados às plataformas.
Números já conhecidos
Levantamentos do IBGE mostram que, em 2024, havia 1,7 milhão de trabalhadores plataformizados no Brasil — 1,9% dos ocupados no setor privado —, um aumento de 25,4% em dois anos (mais 335 mil pessoas). Do total, 58,3% atuam no transporte de passageiros (964 mil) e 29,3% são entregadores (485 mil). A renda média dos trabalhadores por aplicativo era de R$ 2.996, enquanto a média nacional atingiu R$ 3.367 em 2025.
Dados do Detran-SP apontam alta nas mortes envolvendo ciclistas no estado: de 320 casos em 2021 para 409 em 2025, crescimento de 27,8% — porém essas estatísticas não discriminam se as vítimas eram entregadores.
Repercussões e respostas
O MPT abriu projeto para enfrentar a subnotificação de acidentes entre plataformizados. Procuradores dizem que, sem dados consolidados, não é possível traçar o perfil do problema. O debate regulatório também segue incerto: proposta do governo para regulamentar motoristas de aplicativo, apresentada em março de 2024, não incluiu os entregadores.
Plataformas procuradas pela BBC News Brasil afirmaram ter iniciativas de prevenção e seguros para entregadores. O MPT, no entanto, afirma não dispor de meios para confirmar quantos trabalhadores, de fato, foram beneficiados por essas assistências.
Milhares de entregadores continuam nas ruas diariamente, atuando em um setor que ainda busca regras específicas e maior transparência sobre riscos e assistência.
Fonte: G1


