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sábado, setembro 12, 2026

Banco Master usou empresa de R$ 100 para simular R$ 7,155 bilhões em consignados, diz PF

Quem e o quê: A Polícia Federal diz que o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, utilizou a Tirreno Consultoria Promotora de Crédito e Participações S.A. — empresa criada inicialmente com R$ 100 de capital social — para simular a origem de R$ 7,155 bilhões em cessões de empréstimos consignados.

Linha do tempo e estrutura societária

A Tirreno começou como SX 016 Empreendimentos e Participações S.A., criada em 1º de outubro de 2024 com capital declarado de R$ 100, dos quais apenas R$ 10 teriam sido integralizados (R$ 5 por cada sócio fundador, Daniel Moreira Bezerra e Katia Caroline Cunha Silva). Em dezembro de 2024 a empresa mudou de nome e de atividade para atu ar formalmente com consultoria e promoção de crédito, e aprovou aumento de capital para R$ 30 milhões, valor que, conforme a perícia, não foi comprovado como integralizado por Henrique S. S. Peretto.

Apesar de as alterações societárias só terem sido registradas na Junta Comercial de São Paulo em 15 de abril de 2025, a Tirreno assinou 28 contratos de cessão com o Banco Master entre 24 de dezembro de 2024 e 14 de maio de 2025, totalizando R$ 7,155 bilhões. André Felipe de Oliveira Seixas Maia assinou tais contratos, e os reconhecimentos de firma em cartório ocorreram em lote nos dias 13 e 14 de maio de 2025.

Ausência de estrutura e movimentação

A sede informada da Tirreno estava numa avenida com espaço de coworking, sem contrato com a empresa. A PF não encontrou funcionários registrados, recolhimentos previdenciários, emissão ou recebimento de notas fiscais, pagamento de tributos federais ou livros contábeis obrigatórios. O cruzamento fiscal feito após quebra de sigilo não localizou declarações ou recolhimentos compatíveis com bilhões em operações.

Quando o Master solicitou informações cadastrais da Tirreno em 22 de maio de 2025, campos como faturamento, patrimônio e referências bancárias estavam zerados ou em branco. A primeira conta corrente em nome da Tirreno foi aberta apenas em 23 de maio de 2025, no próprio Banco Master, e permaneceu sem saldo ou movimentação.

Como os valores foram registrados

Segundo a perícia, os R$ 7,155 bilhões não foram transferidos a terceiros: os lançamentos constaram na Conta Interna Gerencial do Master sob a rubrica “VENDA DE ATIVOS”, registros gerenciais que não comprovam pagamento efetivo à Tirreno. O contrato previa depósito em Conta Reserva e aplicação em CDBs do banco como garantia, mas a perícia não encontrou emissão de CDBs nem constituição de garantias.

Padrões atípicos e empregadores fictícios

A perícia identificou ausência de PDFs anexos em todos os contratos da Tirreno (contra 98% nos demais), falta de código de compensação bancária em 74% desses contratos (1% nos demais) e forte repetição de valores: entre 1.023.055 contratos havia apenas 629 valores de principal, com repetições médias de 1.626 contratos por valor; um exemplo foi o valor de R$ 30.266,73, que apareceu 41.301 vezes. Em outro lote de cessão de 2 de maio de 2025, 46.478 contratos tinham apenas nove preços de aquisição diferentes.

Os contratos da Tirreno estavam associados a apenas três códigos de empregador no sistema: Gov Bahia 2, Gov Bahia 3 e Convênios Diversos. O código Gov Bahia 3 referia-se ao CNPJ 13.323.274/0001-63 (Secretaria da Administração da Bahia). Os demais códigos utilizavam o CNPJ 74.755.772/0001-70, que não constava na base oficial da Receita Federal, segundo a PF.

Produção interna de documentos

A investigação concluiu que a Tirreno não tinha equipe ou tecnologia para originar os empréstimos: CPFs foram extraídos de bases internas do Master e usados para gerar arquivos. Programadores criaram a ferramenta “API Formalização PDF” em C#, que permitia combinar a segunda página de PDFs de clientes reais com novas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs). Também foram produzidas procurações em lote por meio do recurso Mala Direta do Microsoft Word, com organização por operadores e assinaturas digitais em lote por certificados corporativos usando a ferramenta idtrust. A PF localizou registros de trabalho noturno e finais de semana relacionados a essa produção em escala.

Revenda ao BRB e resposta a auditorias

As carteiras atribuídas à Tirreno eram revendidas ao Banco de Brasília (BRB), às vezes no primeiro dia útil seguinte. Quando o BRB e a auditoria externa Deloitte passaram a exigir documento comprobatório (CCBs, procurações e termos de consentimento), a PF encontrou produção de documentos para responder às exigências, incluindo a pasta “Demanda BRB-Tirreno 2700 amostras”. Em 23 de junho de 2025, André Seixas Maia enviou ao BRB um link no OneDrive com 1.785 desses kits. Em mensagens internas, o diretor Alberto Félix de Oliveira Neto orientou atribuir irregularidades a suposto erro operacional na seleção das amostras.

Alertas de risco e decisão do comitê

Ferramentas de prevenção — E-Guardian, Neoway, Serasa e World Check — classificaram a Tirreno como de alto risco para lavagem de dinheiro e financiamento ao terrorismo, em razão da movimentação bilionária na conta interna gerencial. Ainda assim, conforme prestação de informações à PF, a análise não foi conduzida pelo Compliance interno do banco, mas pelo escritório externo Monteiro Rusu, contratado pela Diretoria e Tesouraria e atuando em sala reservada no 10º andar, sem participação do Compliance interno.

Em 4 de julho de 2025, o Comitê Operacional de PLD/FTP decidiu baixar os alertas de irregularidade e não comunicar o COAF; a PF aponta que participaram da decisão executivos como Alberto Félix de Oliveira Neto, Luiz Antônio Bull e Fábio de Souza Castanheira. A justificativa incluía declaração verbal de Alberto Félix sobre a legitimidade das operações.

A perícia e os atos descritos integram o relatório da Polícia Federal que investiga as operações entre Banco Master, Tirreno e o BRB.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
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Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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