TRANSMISSÃO: Record
A cantora colombiana Shakira domina seis idiomas — espanhol (nativo), inglês, italiano, francês, catalão e expressões em árabe — e seu caso ilustra como o cérebro de pessoas multilíngues organiza e controla o uso simultâneo de línguas, segundo especialistas ouvidos. O fenômeno foi explicado por neurologistas e linguistas consultados em reportagem do G1.
Shakira fala espanhol como língua materna; inglês, com amplo vocabulário e participações em programas de TV como o de Jimmy Fallon; italiano em nível avançado, que dispensa tradutores; francês com pequenos deslizes, mas capacidade de comunicação; catalão aprendido na época em que morou em Barcelona (ela canta, por exemplo, “Boig per Tu”); e árabe em nível mais limitado, restrito a expressões pela ascendência libanesa.
O neurologista Felipe Barros, do Hospital Sírio-Libanês, descreve o funcionamento do cérebro multilíngue como um “malabarismo mental”. Em vez de manter cada idioma em compartimentos isolados, as línguas permanecem ativas ao mesmo tempo, exigindo mecanismos de inibição para suprimir vocabulário e regras gramaticais das línguas que não estão sendo usadas. Barros explica que o processo é um “sistema de controle de ‘chaveamento’” — conhecido em inglês como code-switching — que permite transitar entre idiomas sem misturá-los de forma caótica.
O especialista compara a seleção linguística a um “semáforo neural”: o cérebro sinaliza “verde” para a língua desejada e “vermelho” para as demais, monitorando a fala para evitar interferências e erros de seleção.
Regiões cerebrais envolvidas
Segundo a reportagem, as principais áreas acionadas nesse controle linguístico incluem:
- Área de Broca e de Wernicke: responsáveis pela produção e compreensão da linguagem, criam e codificam palavras e gramática;
- Córtex pré-frontal dorsolateral: gerencia a memória de trabalho e alternância entre tarefas linguísticas, escolhendo qual língua usar;
- Córtex cingulado anterior: monitora conflitos entre idiomas e ajuda na detecção de erros;
- Núcleos da base: atuam na troca de um idioma para outro, funcionando como um “botão biológico”.
Neuroplasticidade e benefícios
O exercício contínuo de alternar línguas promove neuroplasticidade. Barros afirma que neuroimagens mostram aumento da densidade de substância cinzenta e melhora da integridade da substância branca, o que fortalece conexões e agiliza a comunicação entre áreas cerebrais. Esses ajustes acompanham ganhos em flexibilidade cognitiva, atenção seletiva, memória de trabalho e na habilidade conhecida como “efeito coquetel” — filtrar ruído de fundo e isolar uma voz em ambientes barulhentos.
A linguista Cida Caltabiano, doutora em Linguística Aplicada pela Unicamp e professora da PUC-SP, destaca a importância da exposição contínua aos idiomas, citando a música como ferramenta eficaz para aperfeiçoar percepção auditiva e produção vocal. Ela ressalta também que o contato precoce com outra língua facilita o aprendizado, pois a criança passa a aceitar múltiplas formas de nomear um mesmo objeto.
Barros complementa que, embora adultos possam atingir proficiência plena, eles dependem mais do lobo frontal para gerir novo vocabulário, enquanto quem aprende cedo usa as mesmas redes neurais de modo mais natural. Do ponto de vista neurológico, o maior salto ocorre ao passar do monolinguismo para o bilinguismo; a partir do terceiro ou quarto idioma, o cérebro se torna mais eficiente em aprender novas línguas.
Além dos benefícios imediatos, o uso contínuo de múltiplas línguas atua como fator de reserva cognitiva: esse hábito pode retardar em quatro a cinco anos o aparecimento de sintomas de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, ao criar vias alternativas que ajudam o cérebro a manter a função por mais tempo. Para manter essas vantagens, especialistas ressaltam a necessidade de contato frequente com as línguas praticadas.
Fonte: G1 – Educação


