Contexto e principais indicadores
O desemprego no Chile chegou a 9,6%, seu maior patamar em mais de cinco anos, e a economia acumulou quedas de 0,5% no primeiro trimestre e 0,2% no segundo, em comparação com os mesmos períodos de 2025. No segundo trimestre, investimentos produtivos privados e públicos ficaram estagnados, em grande parte devido à forte contração da construção civil, enquanto a demanda interna registrou crescimento praticamente nulo.
Medidas do governo e reação social
Desde que assumiu em março, o presidente José Antonio Kast adotou um programa de austeridade fiscal que inclui corte de 3% no orçamento de todos os ministérios, fechamento ou redução de programas considerados ineficientes e diminuição de investimentos públicos diretos. Em paralelo, o Executivo apresentou ao Congresso uma ampla “megarreforma” que prevê, entre outros pontos, redução gradual do imposto sobre empresas de 27% para cerca de 23% e garantia de invariabilidade tributária para grandes investimentos; o pacote foi aprovado e sancionado no início de outubro.
A decisão do governo de não intervir para compensar o forte aumento do preço do barril de petróleo — após o início da guerra no Irã — levou a um aumento substancial nos combustíveis e a protestos conhecidos como “bencinazo”. Segundo o economista Nicolás Saldías, do Economist Intelligence Unit, o governo considerou que o custo fiscal de compensar a alta seria excessivo e poderia comprometer seus esforços para reduzir o déficit.
Impacto dos combustíveis e perspectivas
O preço médio da gasolina na Região Metropolitana de Santiago subiu cerca de 30% entre os dias anteriores ao início do conflito no Irã e meados de outubro; o diesel registrou alta superior a 40% no mesmo período. Economistas consultados afirmam que, se os preços globais de energia desacelerarem levemente no próximo ano e não houver novos choques, poderá haver uma tendência de recuperação já no primeiro trimestre de 2027.
Queda da mineração e projeções econômicas
A produção mineradora chilena teve recuo aproximado de 17,4% em agosto na comparação anual, levando a atividade ao nível mais baixo das últimas três décadas. Interrupções operacionais e condições climáticas adversas em julho e agosto agravaram a queda. Embora projeções esperem aumento da produção no próximo ano, há preocupação com a redução da concentração de cobre nas rochas, que eleva custos e gera incertezas.
Em resposta aos dados fracos, o Banco Central reduziu suas previsões de crescimento para 2026 para uma faixa entre 0,25% e 0,75%, e o Fundo Monetário Internacional revisou sua estimativa para 0,6%. Se confirmadas, essas projeções colocariam o Chile entre os países com menor crescimento na América Latina em 2026, com apenas a Bolívia prevista para desempenho inferior.
Efeitos sobre a população e medidas de mitigação
Com elevada inflação e desemprego em níveis recordes, a percepção econômica dos consumidores deteriorou-se, conforme o Índice de Percepção da Economia (Ipec) de setembro. O consumo das famílias cresce lentamente e o Índice de Vendas de Supermercados registrou queda de 1,2% em doze meses até agosto, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas.
O governo aprovou um plano de emprego estimado em cerca de US$ 1,3 trilhão (aproximadamente R$ 6,5 trilhões), com a meta de gerar mais de 100 mil postos de trabalho entre 2026 e 2027 por meio de aceleração de obras públicas e subsídios às empresas. Esse programa não fazia parte das políticas de austeridade iniciais, mas, caso seja executado conforme anunciado, poderá proporcionar alívio temporário à economia.
Atualmente, o Congresso debate a Lei Orçamentária para 2027, que prevê crescimento real dos gastos públicos de 1,5%. A proposta é contestada pela oposição, que afirma que o projeto atinge dezenas de programas sociais voltados a populações vulneráveis.
Em um evento com empresários cristãos no início de outubro, o ministro da Fazenda Jaime Quiroz, que construiu carreira no setor privado, buscou transmitir tranquilidade e pediu que não houvesse desespero diante dos indicadores fracos.
Fonte: G1


