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sábado, outubro 31, 2026

Afastamentos por ludopatia atingem recorde em 2026, diz levantamento do g1

Levantamento do g1 com dados da Previdência Social mostra que 2026 teve 377 afastamentos do trabalho por ludopatia até agosto, superando os 312 casos registrados no ano anterior. O relatório aponta que os custos com a concessão de benefícios também cresceram: os pagamentos contabilizados em junho de 2026 foram seis vezes maiores do que em 2023, e os benefícios somavam R$ 1,9 milhão até agosto de 2026.

Raio‑x dos afastamentos

Os registros usados pelo levantamento correspondem a benefícios por incapacidade temporária concedidos com o código CID F63.0 (jogo patológico). Segundo o g1, até 2022 os afastamentos por ludopatia giravam em torno de dez por ano; a partir de 2023 houve aumento progressivo até o recorde parcial de 2026.

A Previdência e o INSS alertam que os números subestimam o problema: parte das pessoas afetadas é afastada por quadros associados, como depressão e ansiedade, registrados em outros CIDs. A conta do g1 sobre custos considera apenas trabalhadores que contribuem para o INSS e ficaram afastados mais de 15 dias.

Quanto isso custa

O levantamento do g1 estima que os afastamentos por ludopatia custaram pelo menos R$ 4,8 milhões à Previdência entre junho de 2023 e agosto de 2026. Especialistas e órgãos apontam custos adicionais na saúde pública e nas finanças das famílias: a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros registra saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento dos brasileiros por causa das apostas em 2025, enquanto o governo arrecadou R$ 15,3 bilhões desde a regulamentação até agosto de 2026. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima custos em saúde de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano ligados às apostas.

Casos pessoais

O levantamento traz exemplos de pessoas que precisaram se afastar do trabalho. Vitória Macedo, atendente de telemarketing de 29 anos, perdeu mais de R$ 30 mil em apostas on-line — inclusive saques do FGTS — e precisou se afastar para tratamento da ludopatia e de depressão. Ela jogou por aproximadamente um ano e meio, chegou a usar rendas paralelas e empréstimos para apostar e hoje parcelou o débito em 12 vezes.

Outro relato é de Ana Moraes, cuja família viu a situação financeira ruir em poucos meses depois que o marido começou a apostar on-line em março de 2023; nove meses depois, em novembro, ele já acumulava dívidas e o prejuízo informado por Ana ultrapassa R$ 3 milhões.

Como o vício atua no cérebro

Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o transtorno do jogo, reconhecido pela psiquiatria desde 1980, acomete circuitos cerebrais semelhantes aos das dependências químicas. Entre os mecanismos citados estão:

  • ativação do sistema de recompensa e liberação de dopamina;
  • liberação de dopamina também durante a expectativa do resultado;
  • dificuldade do cérebro em aprender com perdas em atividades intermitentes;
  • perda de controle e busca por recuperar perdas;
  • gatilhos constantes, agravados pela disponibilidade do jogo no celular.

No ambulatório especializado do Hospital das Clínicas de São Paulo, segundo o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, 80% dos pacientes já tiveram pensamentos suicidas ou tentaram suicídio em algum momento da doença.

Regulamentação, investigação e mercado

As casas de apostas on-line foram liberadas no país em 2018 e passaram por processo de regulamentação em 2023, com regras que incluíam cobrança por autorização, tributação e exigência de ferramentas para prevenção do jogo patológico, como limites e autoexclusão. Ainda assim, há denúncias de descumprimento: o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) investiga a BetBoom após denúncia de que uma gerente da empresa teria contatado por WhatsApp uma apostadora com ludopatia e oferecido bebida alcoólica para estimulá‑la a continuar jogando; a apostadora teria gasto mais de R$ 300 mil. A Justiça determinou bloqueio de R$ 97 mil nas contas da empresa e o MPDFT move ações civis públicas contra casas de apostas e influenciadores, com pedidos de indenização que somam mais de R$ 100 milhões.

O promotor Paulo Roberto Binicheski afirma que a migração para o mercado ilegal pode ser um efeito da medida provisória que proibiu as bets, e diz haver necessidade de maior fiscalização e controle de meios de pagamento para frear operações ilegais.

Pressão sobre o SUS

Especialistas ouvidos pelo g1 dizem que o Sistema Único de Saúde não estava preparado para o aumento da demanda por atendimento em saúde mental decorrente do crescimento das apostas. O Brasil tem cerca de 49 milhões de trabalhadores com carteira assinada e 3.070 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), uma média de quase 16 mil trabalhadores por centro.

O Ministério da Saúde registra aumento no atendimento por ludopatia na atenção básica: 668 casos em 2021, 1,2 mil em 2022 e mais de 6,4 mil em 2025. O orçamento federal para saúde mental passou de R$ 1,7 bilhão em 2022 para R$ 2,9 bilhões em 2025, e o ministério diz ter criado 6,2 mil equipes multiprofissionais para as Unidades Básicas de Saúde. Desde este ano, o serviço de teleatendimento foi lançado pelo aplicativo Meu SUS Digital, com capacidade para 100 mil atendimentos mensais.

Onde buscar ajuda

O texto informa que quem precisa de apoio pode recorrer ao Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br, disponível 24 horas; também é possível procurar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos CAPS. O SUS oferece teleatendimento via aplicativo Meu SUS Digital, com ciclo inicial de até dez sessões por videochamada e reavaliação ao fim do período.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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