Paralisação afeta cidade criada ao redor do moinho
A fábrica de papel que foi o motor econômico de Témiscaming por mais de um século está paralisada, deixando a maioria dos cerca de 360 funcionários sem trabalho após a decisão da proprietária americana RYAM de suspender operações “por razões econômicas” no início de outubro. A unidade ocupa grande parte da paisagem da cidade, construída ao redor do moinho e das florestas locais.
Os trabalhadores afetados recebem, por enquanto, pagamento parcial garantido por um programa de alívio tarifário do governo federal. Ainda assim, moradores relatam que a paralisação provocou queda imediata no valor dos imóveis e espalhou placas de “Vende-se” nos jardins das casas de classe média.
Para residentes como Nadine Suley, a fábrica representa mais do que emprego: “Não é apenas um emprego. É a nossa casa”, diz ela, que afirma que as tarifas dos Estados Unidos parecem “um ataque pessoal”. Ronnie Raymond, que vem de família de trabalhadores da fábrica, alerta que “se a fábrica fechar, a cidade vai virar uma cidade fantasma”.
Impacto setorial e histórico de mobilização
Em termos nacionais, a economia do Canadá manteve crescimento moderado e taxa de desemprego em torno de 6,5% desde a imposição das tarifas americanas. No entanto, setores diretamente atingidos pelas taxas de até 50% — como aço, alumínio, automóveis e produtos florestais, incluindo madeira, celulose e papel — têm sofrido impactos concentrados. Na região de Témiscaming, há risco de efeito dominó sobre serrarias e empresas de transporte; um empreiteiro local já demitiu 13 funcionários.
A última ameaça comparável à sobrevivência da cidade ocorreu em 1973, quando trabalhadores e gestores se uniram para comprar o moinho e formar a Tembec. Agora, moradores e sindicato organizam uma coalizão para tentar recomprar a fábrica da RYAM, que adquiriu a unidade em 2017. Stéphane Lefebvre, líder sindical com laços familiares ao trabalho no moinho, diz esperar repetir o feito, mas afirma que isso dependerá de apoio significativo do primeiro-ministro Mark Carney e do governo de Quebec.
Frank Dottori, hoje aposentado e ex-diretor-executivo que liderou a compra na década de 1970, relata ter enfrentado resistência política à época, mas conseguiu mobilizar trabalhadores para assumir o controle da operação. Dottori afirma que a atual geração precisará de alguém igualmente ousado para repetir a iniciativa.
Política, tarifas e resposta do governo
Em agosto, após o fracasso de negociações comerciais, os Estados Unidos aplicaram tarifas de 50% sobre cerca de C$ 28 bilhões em produtos canadenses, incluindo madeira, celulose e papel. O Canadá reagiu com tarifas retaliatórias “dólar por dólar”. A fábrica de Témiscaming envia cerca de 75% da produção para os EUA e fabrica papelão usado em embalagens de alimentos congelados e bilhetes de loteria instantânea.
Autoridades federais afirmam ter liberado C$ 400 milhões para apoiar o setor florestal em áreas rurais e remotas e criado programa para prover capital de giro a empresas afetadas. Em nota, o governo informou que “está trabalhando ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar uma solução viável para os desafios enfrentados pela empresa, ao mesmo tempo que administra de forma responsável o dinheiro dos canadenses”.
Recentes medidas também incluem um pacote anunciado por Carney e o primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, de quase C$ 9 bilhões para apoiar os setores siderúrgico e automobilístico, com recursos destinados à modernização industrial e à abertura de novos mercados.
O prefeito Alain Gauthier não atribui a decisão sobre a fábrica à RYAM, mas responsabiliza as tarifas americanas pela crise: “uma bomba destinada a acabar com nossa produção industrial no Canadá”. Gauthier pediu retaliações sobre produtos de papelão importados dos EUA, atualmente isentos de tarifas.
Expectativas e riscos imediatos
Trabalhadores depositam esperança nas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos como possível alívio às pressões tarifárias. Alguns recuos ocorreram recentemente, após a intervenção da senadora Susan Collins, porém as mudanças não alcançaram os produtos da unidade de Témiscaming. A RYAM declarou por e-mail à BBC que não comentaria a possibilidade de venda da fábrica nem sobre potenciais compradores.
Além da incerteza econômica, os moradores temem danos às instalações caso a paralisação se estenda até o inverno, quando temperaturas abaixo de zero podem congelar equipamentos e dificultar a reabertura. Enquanto isso, sindicatos e comunidade promovem mobilizações e planejam ações para tentar manter a fábrica nas mãos de moradores.
Fonte: G1


