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quinta-feira, maio 7, 2026

Limpar o nome com o Desenrola 2.0 pode ajudar, mas não resolve as causas do endividamento, dizem especialistas

O governo federal lançou na última segunda-feira (4) o programa Desenrola 2.0, que oferece descontos de 30% a 90% para renegociação de dívidas atrasadas e tem como público-alvo trabalhadores com renda de até R$ 8.105 por mês. A iniciativa promete ajudar a limpar o nome de milhões de brasileiros, mas especialistas consultados apontam que o alívio imediato pode não ser suficiente para prevenir o retorno ao endividamento.

De acordo com planejadoras financeiras e professores, medidas de renegociação tendem a reduzir a inadimplência de forma pontual, mas não atacam problemas estruturais como o fácil acesso a crédito com juros elevados, a falta de educação financeira e o impacto emocional das dívidas.

“O problema da dívida não está apenas na taxa de juros. Ele vem do excesso de crédito disponível para a população”, afirma a planejadora financeira Myrian Lund, que defende a associação do programa a ações de educação financeira para efeitos mais duradouros. Para a também planejadora Mônica Cardoso, é preciso cautela nas renegociações para evitar que uma dívida quitada dê lugar a outra no futuro.

Casos ilustram limitações do recurso

O empresário Delano Zonta relatou ao g1 como uma vitória momentânea sobre dívidas se transformou em frustração. Ele conta que, em um sábado, ganhou R$ 35 mil na quina da Mega-Sena quando tinha apenas R$ 42 na conta. “Peguei o dinheiro às 11h e comecei a pagar um pouco de cada dívida. Às 14h30 (Brasília UTC-3), eu já não tinha mais nenhum real. Tinha dado tudo para o banco”, disse.

Antes do prêmio, Zonta havia acumulado mais de R$ 230 mil em dívidas entre cartão de crédito, cheque especial e empréstimos. Mesmo após usar parte do valor ganho para pagar credores, ainda restavam R$ 216 mil. A experiência o levou a reorganizar finanças: separou dívidas, ajustou o orçamento e, com o apoio da esposa, fez mudanças que levaram quase quatro anos até quitar os débitos — a última parcela, de R$ 316, foi paga em janeiro de 2020. Desde então, Zonta formou-se como planejador financeiro e atua na área.

Outros relatos no g1 mostram causas variadas para o endividamento. No final de 2024, Fernanda* teve o celular roubado e viu compras não autorizadas no cartão que ultrapassaram R$ 40 mil; criminosos também contrataram um empréstimo de R$ 150 mil em seu nome, o que levou o banco a usar recursos da conta para amortizar parte da dívida. Segundo ela, uma dívida inicial de R$ 30 mil no cartão se transformou em R$ 112 mil, e ela avalia se inscrever no Desenrola 2.0 para tentar regularizar a situação.

O coordenador do curso de ciências contábeis da Unicid, Wagner Pagliato, relaciona endividamentos crônicos a decisões de consumo desalinhadas e à pressão social por um padrão de vida acima da renda, além de eventos imprevistos que desorganizam o orçamento. A secretária Tatiana* relatou que, ao ajudar um parceiro, assumiu empréstimo consignado e passou a acumular quase R$ 100 mil em dívidas, beneficiando-se ainda do crédito fácil, como aumento de limite em agência.

Como sair do endividamento, segundo especialistas

Especialistas ouvidos pelo g1 recomendam começar por um diagnóstico financeiro detalhado — levantamento das dívidas e da renda disponível — e priorizar o pagamento dos débitos com maiores taxas de juros. Também apontam a necessidade de mudança de hábitos de consumo e, quando possível, o acompanhamento de um profissional para orientar o momento e a forma de negociar com os bancos.

“O devedor precisa fazer o dever de casa. Não vai cair dinheiro do céu. É necessário fazer uma economia de guerra e tentar juntar o máximo possível para liquidar a dívida de uma vez”, afirma Myrian Lund. Mônica Cardoso acrescenta que a transformação de hábitos é lenta e exige sacrifícios, citando como exemplo quando seu marido chegou a picotar o cartão para evitar novas compras impulsivas.

Embora o Desenrola 2.0 possa facilitar a renegociação e recuperar o acesso ao crédito para muitos consumidores, especialistas destacam que seus efeitos tendem a ser mais imediatos do que permanentes, a menos que venham acompanhados de medidas que reduzam o acesso a crédito predatório e promovam educação financeira.

Fonte original: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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