Resumo: A modernização da rede elétrica em Minas Gerais tem avançado com investimentos em automação e no sistema de dupla alimentação, mas produtores e especialistas afirmam que a infraestrutura ainda não acompanha a transformação tecnológica do agronegócio, sobretudo em áreas como o Triângulo Mineiro.
A Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) ampliou nos últimos anos recursos destinados à distribuição, à automação da rede e à implantação do chamado sistema de dupla alimentação — tecnologia que conecta localidades a dois circuitos independentes para reduzir os efeitos de falhas. Desde 2023, a empresa aplicou cerca de R$ 243 milhões na expansão desse modelo no estado.
Segundo dados da Cemig, foram construídos 442 quilômetros de novas redes elétricas e o sistema passou a cobrir cerca de 700 municípios mineiros, o equivalente a aproximadamente 90% da área de concessão da companhia. Ainda assim, analistas e produtores apontam que a capacidade de atendimento continua sendo um dos principais entraves para o campo tecnificado.
Na região de Uberlândia, os investimentos incluem a construção de novas subestações, reforço na distribuição e a integração da Subestação Uberlândia 10 ao sistema regional, com o objetivo de fortalecer o abastecimento de cidades como Uberlândia, Uberaba e Araguari.
O perfil da demanda rural mudou. Se antes a eletricidade era usada basicamente para iluminação, bombas pequenas e tarefas simples, hoje a produção agropecuária exige energia contínua para irrigação automatizada, pivôs centrais, ordenha robotizada, armazenagem refrigerada, internet rural, sensores, rastreabilidade, drones, usinas solares e sistemas de automação que operam praticamente 24 horas por dia.
Produtores do Triângulo Mineiro relatam problemas como oscilações de tensão, quedas frequentes e demora no restabelecimento do serviço, impactos que afetam irrigação, conservação do leite, operação de silos e equipamentos de alto consumo.
O avanço da geração distribuída no campo — com milhares de propriedades instalando painéis solares e passando a produzir energia — também pressiona a rede, que não foi originalmente projetada para um fluxo descentralizado. Especialistas do setor energético destacam que o gargalo atual envolve capacidade de distribuição, estabilidade da rede e rapidez de resposta operacional, além da geração.
Em áreas agrícolas, o crescimento da irrigação já exige redes mais robustas: um pivô central pode consumir o equivalente ao consumo de dezenas de residências urbanas. A Cemig reconhece ainda que eventos climáticos extremos, como tempestades e descargas elétricas, aumentaram a necessidade de resiliência do sistema e motivaram a aceleração de investimentos em automação e operação remota.
Hernane Salvador Braga, gerente de Planejamento da Expansão da Cemig Distribuição, afirma que a dupla alimentação tem como objetivo reduzir os impactos de ocorrências no sistema elétrico e agilizar o restabelecimento do fornecimento.
Produtores e entidades do setor avaliam, no entanto, que os investimentos ainda não acompanham o ritmo de crescimento do campo tecnológico. A expansão da agricultura irrigada, da produção leiteira automatizada, das usinas solares rurais e da agroindústria tem elevado a demanda energética em velocidade superior à observada há uma década.
Com isso, a questão da eletricidade no meio rural deixou de ser apenas operacional e passou a integrar o debate sobre infraestrutura, produtividade, segurança alimentar e competitividade do agronegócio. No Triângulo Mineiro, uma das regiões mais tecnificadas do país, a energia já é tratada como elemento estratégico para o desenvolvimento econômico regional.
Fonte: Regionalzao


