Rosana Paulino, artista visual e educadora paulistana, chegou ao Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR) no Dia da Consciência Negra atuando como curadora e lançando uma série de minidocumentários sobre 20 artistas negros e negras brasileiros. Em sua fala ao lado do diretor Fabiano Maciel, Paulino destacou que se trata de um momento histórico e que esses profissionais têm formação e produção sólidas, embora antes fossem pouco conhecidos.
Aos 59 anos, filha de um pintor de paredes e de uma faxineira, Paulino é referência na arte brasileira e foi escolhida para representar o Brasil na 61ª Bienal Internacional de Veneza, junto com a artista carioca Adriana Varejão. No MAR, ela atuou como uma voz experiente da cena afro-brasileira, ressaltando a importância de trazer visibilidade a nomes que historicamente ficaram à margem.
O título do pavilhão brasileiro em Veneza, “Comigo Ninguém Pode”, deriva de uma obra da série Senhora das Plantas, de Paulino, que retrata mulheres em metamorfose com elementos vegetais e evoca proteção, resiliência e estratégias de sobrevivência. A edição da Bienal é composta apenas por mulheres, com a curadoria do Pavilhão do Brasil a cargo de Diane Lima, a primeira mulher negra nessa função.
Ao longo de três décadas de carreira, Paulino realizou exposições individuais em cidades como Buenos Aires, Bruxelas e Nova York, onde exibiu um painel de nove metros na High Line. Obras suas foram incorporadas ao acervo da Tate Modern e do MoMA. Entre os prêmios que recebeu estão o Munch Award, na primeira edição em 2024, que a reconheceu como “voz de liderança do feminismo negro”, e o Jane Lombard de Arte e Justiça Social, concedido em reconhecimento ao livro História Natural (2016), que examina as interseções entre ciência e violência racial.
Trabalhando com desenhos, pinturas, bordados, gravura, colagem, escultura e instalações, Paulino aborda a condição da mulher negra, a ancestralidade e as marcas do colonialismo e da escravidão. Ela também desconstrói imagens e teorias de pseudociência racista, afirmando que o racismo científico é pouco estudado, mas essencial para compreender a desumanização de corpos negros e episódios de violência — citando, por exemplo, o massacre que deixou 117 mortos nos complexos do Alemão e da Penha no Rio de Janeiro e a discrepância de como diferentes vidas são percebidas.
Paulino nasceu e cresceu na Freguesia do Ó, então um bairro de características rurais na Zona Norte de São Paulo. Filha entre quatro irmãs, recorda que a mãe criava galinhas, mantinha uma horta e bordava para complementar a renda, enquanto o pai trabalhou inicialmente descarregando caminhões e depois tornou-se pintor de paredes. A infância entre a natureza e o trabalho manual despertou nela o interesse pela biologia e pelas práticas manuais que dariam origem à sua formação artística.
Incentivada pela mãe a estudar desenho no Liceu de Artes e Ofícios, Paulino prestou vestibular para biologia na Unicamp e para artes visuais na USP, optando por esta última. Concluiu doutorado na Escola de Comunicações e Artes da USP e especializou-se em gravura no London Print Studio com bolsa da Capes. A passagem pela Inglaterra foi importante para acompanhar debates internacionais num período em que a internet ainda estava em desenvolvimento.
Entre suas obras citadas na mostra brasileira estão a instalação Tecelãs (2003), com pequenas esculturas de faiança, terracota, algodão e fios sintéticos, que recebe visitantes na entrada do Pavilhão do Brasil em Veneza, e a escultura Crisálida (2026), produzida em bronze a partir de um desenho de gravura realizado 20 anos antes.
Além da produção artística, Paulino tem papel de mentor para uma nova geração de artistas negros e negras, muitos dos quais a chamam de “dinda”. Alguns deles aparecem na série de minidocumentários Raiz, do Canal Curta!, como o artista Dalton Paula e o curador Igor Simões, este último cocurador de sua mostra no MALBA em 2024.
Apesar de ofertas para atuar no exterior, especialmente de universidades americanas, Paulino mantém-se em São Paulo. “Não acredito em fazer dinheiro e sair do país”, disse a artista, que vive e trabalha em Pirituba, onde tem um ateliê em uma casa de três andares e pretende transformar o espaço em centro de pesquisa com biblioteca especializada em arte, diáspora e temas afro-brasileiros e latino-americanos, como forma de ampliar referências para jovens artistas.
No entorno de sua casa e ateliê, ela mantém ações comunitárias — sua equipe distribui cachos de banana na praça em frente — e planeja criar uma horta no amplo quintal com vista para a mata e o Pico do Jaraguá. Paulino afirma que prefere a ação e a mudança, e vê na entrada de negras e negros no panorama artístico do país um passo importante para que o Brasil se reconheça.


