O que: A chamada “pobreza sistêmica de refrigeração” descreve como infraestrutura, serviços e desenho urbano insuficientes deixam grandes parcelas da população mais vulneráveis ao calor extremo, segundo estudo que analisou 28 países.
Quem e quanto: A amostra do estudo abrange cerca de 3 bilhões de pessoas; quase 600 milhões delas enfrentam níveis graves desse tipo de pobreza. Sul da Ásia e África Subsaariana concentram os maiores impactos.
Onde e por que: Em áreas urbanas densas, como favelas do Rio de Janeiro — por exemplo Vidigal e Rocinha — moradores vivem em “ilhas de calor”: telhados de metal, ausência de espaços verdes, falta de transporte público regular e poucas fontes de água potável tornam o calor noturno e diurno mais prejudicial. Em bairros periféricos, calçadas e concreto retêm calor horas após o pôr do sol, e a inexistência de locais públicos mais frescos impede alívio.
Contexto global: Eventos recentes ilustram a magnitude do fenômeno: no último verão a Espanha teve máximas de 46°C, Portugal chegou a 46,6°C, a França registrou o segundo junho mais quente desde 1900 e mais de 150 milhões de pessoas nos EUA ficaram sob alertas de calor extremo. Regiões do sul da Ásia, África Ocidental e boa parte da América Latina enfrentam calor perigoso de forma recorrente.
Fatores que aumentam a exposição: A vulnerabilidade depende da qualidade da infraestrutura física (edifícios, vias, rede hídrica, arborização) e da infraestrutura social (serviços de saúde, instituições e redes de apoio). Diferenças demográficas, renda, idade, condição de saúde, identidade de gênero e discriminação também determinam quem sofre mais e quem permanece invisível.
Ar-condicionado não é solução universal: O acesso ao ar-condicionado é desigual entre e dentro dos países; além disso, o uso intensivo eleva as contas de eletricidade em mais de um terço, em média, sobrecarrega redes e contribui para emissões que intensificam as ondas de calor. Produção e descarte de aparelhos também geram impactos ambientais e riscos de contaminação.
Experiências locais: Desde 2020, pesquisadores do projeto entrevistaram 80 moradores de subúrbios e favelas do Rio; 19 mantiveram diários digitais com relatos, fotos e áudios. As rotinas mudaram: cuidadores passam tarefas para as horas mais frescas, vendedores ambulantes alteram rotas ou fecham; pessoas com mobilidade reduzida não conseguem adotar estratégias simples de resfriamento, e famílias veem a conta de luz triplicar no verão. Para alguns, praias e cachoeiras são inacessíveis por limitações de mobilidade; mulheres trans relatam que o risco de assédio em banheiros públicos restringe seu consumo de água.
Definição ampliada e soluções: A pobreza sistêmica de refrigeração é mais do que falta de renda para comprar aparelhos: envolve falhas em proteger moradores em lares, locais de trabalho, escolas e serviços de saúde, e está ligada a causas estruturais como desigualdade, discriminação, políticas urbanas que removem áreas verdes e habitação inadequada. Propostas eficazes exigem coordenação entre planejamento urbano, saúde pública, habitação e legislação trabalhista, ações como ampliar acesso à água, reformar construções e plantar árvores, além de enfrentar discriminações. O estudo ressalta que as pessoas mais afetadas devem participar do desenho das soluções, para que se alcance a chamada justiça térmica.
Fonte: G1


