Governo avalia cenário adverso e aposta em resposta técnica e diplomática
O Palácio do Planalto considera que a proposta do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 25% sobre exportações brasileiras terá forte repercussão política no país. A orientação no Executivo é manter as negociações, mas o governo reconhece que o quadro é desfavorável caso a medida seja confirmada pelo governo Donald Trump no próximo mês.
Entre integrantes do Planalto a avaliação é de que a confirmação da tarifa poderia recriar um ambiente interno parecido com o vivido em julho de 2025, quando os Estados Unidos anunciaram um “tarifaço” que chegou a 50%. A investigação sobre práticas comerciais desleais, segundo auxiliares presidenciais, começou naquele mesmo período, no contexto das sanções adotadas enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentava julgamento por tentativa de golpe de Estado.
Na manhã desta terça-feira (2), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou em entrevista à Rádio Itatiaia, de Minas Gerais, que pediu ao presidente americano Donald Trump — em encontros que também contaram com a presença do vice J.D. Vance e do secretário de Estado Marco Rubio — que as empresas brasileiras não fossem taxadas pelos EUA. A declaração foi interpretada por aliados do senador como uma tentativa de mitigar eventual desgaste eleitoral caso a tarifa avance.
Aliados da família Bolsonaro lembram que, no ano passado, integrantes do grupo político defenderam a adoção das retaliações americanas; o ex-deputado Eduardo Bolsonaro pressionou por medidas de retaliação com o objetivo de influenciar o julgamento contra o pai. Na ocasião, a imposição de tarifas elevadas foi encarada internamente como uma decisão política dos EUA, apesar de o Brasil registrar déficit comercial com os norte-americanos.
Houve reação unida do setor produtivo e de outros segmentos do país contra as medidas adotadas então. O governo Lula afirma ter rebatido tecnicamente todas as acusações americanas relativas a práticas comerciais desleais, incluindo argumentos sobre PIX, preservação ambiental, pirataria e multas aplicadas a grandes plataformas.
A estratégia do Planalto, conforme decisores ouvidos pela reportagem, é negociar até julho e adotar uma resposta técnica e diplomática similar à do ano passado, evitando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adote tom beligerante que possa prejudicar a interlocução internacional. Um assessor próximo ao presidente observou que novas tarifas ameaçam empresas brasileiras e postos de trabalho, e por isso a reação deve demonstrar tecnicamente a injustiça de uma eventual decisão americana.
O presidente Lula em imagem de maio de 2026. Ricardo Stuckert / PR


