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terça-feira, junho 2, 2026

A.G. Sulzberger alerta que inteligência artificial ameaça o jornalismo e a esfera pública

Publicador do The New York Times critica práticas das gigantes de IA e pede defesa do jornalismo original

A.G. Sulzberger, publisher do The New York Times, disse em 2026 que a adoção acelerada de sistemas de inteligência artificial generativa coloca em risco o jornalismo profissional e a esfera pública. No discurso, ele citou o lançamento público do ChatGPT há menos de quatro anos e lembrou que, em poucos meses, o serviço alcançou 100 milhões de usuários — marco que ilustra a velocidade da expansão desse tipo de tecnologia.

Sulzberger afirmou que, além da OpenAI, empresas como Anthropic, Google, Meta, Microsoft e X estão desenvolvendo modelos e agentes de IA cada vez mais potentes. Para ele, a tecnologia representa uma grande revolução tecnológica, mas também levanta questões cruciais: ganhos de produtividade, perdas de empregos, avanços ou riscos na saúde, e, especialmente, a capacidade de compreender e controlar esses sistemas.

O foco do publisher foi o impacto da IA sobre o jornalismo e o ecossistema de informação que sustenta a esfera pública. Ele advertiu que as empresas que lideram a IA concentram controle sobre dados e atenção do público e, ao mesmo tempo, falham em assegurar que o público tenha acesso a notícias confiáveis. Segundo Sulzberger, esse problema decorre, em grande parte, do uso massivo de obras protegidas por direitos autorais no treinamento de modelos, muitas vezes sem permissão ou compensação aos criadores.

Como exemplo do alcance desse uso, o executivo destacou que cinco dos dez principais sites empregados no treinamento de alguns modelos pertencem a editoras de notícias. Ele afirmou que a OpenAI reconheceu ser “impossível treinar os modelos de IA líderes de hoje sem usar materiais protegidos por direitos autorais” e que o conjunto de dados é determinante para a eficácia dos sistemas.

Sulzberger descreveu os quatro ingredientes básicos da IA — talento, computação, energia e dados — e ressaltou que, enquanto os três primeiros são pagos, os chamados “dados” (conteúdos jornalísticos, livros, filmes, músicas) estão sendo utilizados sem compensação. Ele contestou justificativas como inovação, uso de fatos ou uso justo e rebateu argumentos de segurança nacional relacionados à competição com a China.

O publisher apresentou números para reforçar o argumento: a avaliação combinada das seis principais empresas de IA alcança US$ 11 trilhões; o investimento privado em IA nos EUA chegou a quase US$ 350 bilhões em 2025; e menos de 0,5% desse investimento, segundo estimativas baseadas em acordos divulgados, teria ido para compensar criadores de conteúdo.

Ao detalhar a experiência do New York Times, Sulzberger informou que o jornal publicou quase meio milhão de obras no ano anterior, a um custo superior a US$ 2 bilhões, contou com jornalistas em todos os 50 estados americanos e em 155 países e teve mais de 70 profissionais no terreno na Ucrânia em 2025. Ao longo de 175 anos, a redação produziu cerca de 20 milhões de trabalhos originais, afirmou.

O publisher disse que o Times foi a maior fonte individual de dados proprietários em um conjunto utilizado para treinar vários modelos, seguido por veículos como The Guardian e Los Angeles Times. Em resposta ao uso não autorizado, o New York Times moveu processos contra OpenAI, Microsoft e Perplexity por supostas violações de direitos autorais; a ação já dura dois anos e meio e custou mais de US$ 20 milhões, segundo Sulzberger.

Sulzberger ressaltou que o jornalismo já vinha sofrendo declínio antes da chegada da IA: nos EUA, estimativas apontam perda de 75% do efetivo jornalístico e o fechamento de mais de 3.000 jornais nas últimas duas décadas; um novo jornal fecha a cada três dias, apontou. O avanço da IA, disse ele, pode agravar a erosão, porque as plataformas deixam de encaminhar leitores aos sites de notícia e passam a responder perguntas diretamente, reduzindo drasticamente o tráfego de referência.

Dados citados indicam que mecanismos de busca com IA enviam 96% menos tráfego de referência que a busca tradicional e que os maiores jornais monitorados pelo Comscore registraram quedas de tráfego superiores a 45% em média nos últimos quatro anos. A receita publicitária impressa e digital dos jornais já caiu 80% nas últimas duas décadas, enquanto empresas como a Meta faturam muito mais em publicidade do que todo o setor jornalístico.

Sulzberger também chamou atenção para práticas problemáticas dos modelos: roubo de conteúdo por rastreamento de sites, violações de paywalls e uso de materiais pirateados. Citou estudos que apontam que cerca de 30% das varreduras por bots de IA violam restrições de acesso e que assistentes de IA distorceram notícias em quase metade das respostas em pesquisa da European Broadcasting Union.

O publisher citou riscos adicionais, como aumento de desinformação, deepfakes e polarização, e lembrou casos em que bots deram informações erradas sobre eventos reais. Segundo pesquisa do Pew Research Center mencionada por Sulzberger, dois terços dos americanos estão muito preocupados com a disseminação de informações imprecisas pela IA.

Para enfrentar os desafios, Sulzberger propôs ações em duas frentes: defesa jurídica e política dos direitos de propriedade intelectual e medidas internas das redações. Entre as recomendações estão: insistir na proteção dos direitos autorais; avaliar com cautela acordos de licenciamento; cobrar dos legisladores regras que reforcem proteções, obrigue bots a se identificarem, limitem o rastreamento sem permissão e exijam transparência sobre o uso de conteúdo jornalístico; e buscar coalizões com outras indústrias criativas.

No plano operacional, ele sugeriu às organizações de notícias que adotem padrões responsáveis para uso de IA, priorizem a criação de relações diretas com o público, invistam em jornalismo original e comuniquem ao público a importância desse trabalho para a saúde das democracias.

Sulzberger concluiu afirmando que a informação e o jornalismo têm valor econômico e cívico e que o futuro das organizações de notícias e da esfera pública dependerá das respostas a essas práticas das empresas de tecnologia.

Texto original disponível em: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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