Levantamento do g1 com dados da Previdência Social mostra que 2026 teve 377 afastamentos do trabalho por ludopatia até agosto, superando os 312 casos registrados no ano anterior. O relatório aponta que os custos com a concessão de benefícios também cresceram: os pagamentos contabilizados em junho de 2026 foram seis vezes maiores do que em 2023, e os benefícios somavam R$ 1,9 milhão até agosto de 2026.
Raio‑x dos afastamentos
Os registros usados pelo levantamento correspondem a benefícios por incapacidade temporária concedidos com o código CID F63.0 (jogo patológico). Segundo o g1, até 2022 os afastamentos por ludopatia giravam em torno de dez por ano; a partir de 2023 houve aumento progressivo até o recorde parcial de 2026.
A Previdência e o INSS alertam que os números subestimam o problema: parte das pessoas afetadas é afastada por quadros associados, como depressão e ansiedade, registrados em outros CIDs. A conta do g1 sobre custos considera apenas trabalhadores que contribuem para o INSS e ficaram afastados mais de 15 dias.
Quanto isso custa
O levantamento do g1 estima que os afastamentos por ludopatia custaram pelo menos R$ 4,8 milhões à Previdência entre junho de 2023 e agosto de 2026. Especialistas e órgãos apontam custos adicionais na saúde pública e nas finanças das famílias: a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros registra saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento dos brasileiros por causa das apostas em 2025, enquanto o governo arrecadou R$ 15,3 bilhões desde a regulamentação até agosto de 2026. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima custos em saúde de pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano ligados às apostas.
Casos pessoais
O levantamento traz exemplos de pessoas que precisaram se afastar do trabalho. Vitória Macedo, atendente de telemarketing de 29 anos, perdeu mais de R$ 30 mil em apostas on-line — inclusive saques do FGTS — e precisou se afastar para tratamento da ludopatia e de depressão. Ela jogou por aproximadamente um ano e meio, chegou a usar rendas paralelas e empréstimos para apostar e hoje parcelou o débito em 12 vezes.
Outro relato é de Ana Moraes, cuja família viu a situação financeira ruir em poucos meses depois que o marido começou a apostar on-line em março de 2023; nove meses depois, em novembro, ele já acumulava dívidas e o prejuízo informado por Ana ultrapassa R$ 3 milhões.
Como o vício atua no cérebro
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que o transtorno do jogo, reconhecido pela psiquiatria desde 1980, acomete circuitos cerebrais semelhantes aos das dependências químicas. Entre os mecanismos citados estão:
- ativação do sistema de recompensa e liberação de dopamina;
- liberação de dopamina também durante a expectativa do resultado;
- dificuldade do cérebro em aprender com perdas em atividades intermitentes;
- perda de controle e busca por recuperar perdas;
- gatilhos constantes, agravados pela disponibilidade do jogo no celular.
No ambulatório especializado do Hospital das Clínicas de São Paulo, segundo o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo, 80% dos pacientes já tiveram pensamentos suicidas ou tentaram suicídio em algum momento da doença.
Regulamentação, investigação e mercado
As casas de apostas on-line foram liberadas no país em 2018 e passaram por processo de regulamentação em 2023, com regras que incluíam cobrança por autorização, tributação e exigência de ferramentas para prevenção do jogo patológico, como limites e autoexclusão. Ainda assim, há denúncias de descumprimento: o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) investiga a BetBoom após denúncia de que uma gerente da empresa teria contatado por WhatsApp uma apostadora com ludopatia e oferecido bebida alcoólica para estimulá‑la a continuar jogando; a apostadora teria gasto mais de R$ 300 mil. A Justiça determinou bloqueio de R$ 97 mil nas contas da empresa e o MPDFT move ações civis públicas contra casas de apostas e influenciadores, com pedidos de indenização que somam mais de R$ 100 milhões.
O promotor Paulo Roberto Binicheski afirma que a migração para o mercado ilegal pode ser um efeito da medida provisória que proibiu as bets, e diz haver necessidade de maior fiscalização e controle de meios de pagamento para frear operações ilegais.
Pressão sobre o SUS
Especialistas ouvidos pelo g1 dizem que o Sistema Único de Saúde não estava preparado para o aumento da demanda por atendimento em saúde mental decorrente do crescimento das apostas. O Brasil tem cerca de 49 milhões de trabalhadores com carteira assinada e 3.070 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), uma média de quase 16 mil trabalhadores por centro.
O Ministério da Saúde registra aumento no atendimento por ludopatia na atenção básica: 668 casos em 2021, 1,2 mil em 2022 e mais de 6,4 mil em 2025. O orçamento federal para saúde mental passou de R$ 1,7 bilhão em 2022 para R$ 2,9 bilhões em 2025, e o ministério diz ter criado 6,2 mil equipes multiprofissionais para as Unidades Básicas de Saúde. Desde este ano, o serviço de teleatendimento foi lançado pelo aplicativo Meu SUS Digital, com capacidade para 100 mil atendimentos mensais.
Onde buscar ajuda
O texto informa que quem precisa de apoio pode recorrer ao Centro de Valorização da Vida (CVV) pelo telefone 188 ou pelo site cvv.org.br, disponível 24 horas; também é possível procurar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e nos CAPS. O SUS oferece teleatendimento via aplicativo Meu SUS Digital, com ciclo inicial de até dez sessões por videochamada e reavaliação ao fim do período.
Fonte: G1


