Estudantes de pelo menos três universidades dos Estados Unidos vaiaram palestrantes durante cerimônias de formatura sempre que a expressão “inteligência artificial” foi mencionada. Em vídeos que viralizaram nas redes sociais, a reação aparece em discursos feitos na Universidade da Flórida Central, na Universidade do Arizona e na Universidade Estadual do Meio do Tennessee.
Na Universidade da Flórida Central, a executiva do setor imobiliário Gloria Caulfield foi alvo das vaias ao afirmar que a IA representa uma nova Revolução Industrial. Em outro episódio, na Universidade do Arizona, Eric Schmidt, ex-CEO do Google, foi vaiado ao se referir aos “arquitetos da inteligência artificial”, menção ligada à escolha da revista Time de personalidades do ano. E na Universidade Estadual do Meio do Tennessee, o executivo musical Scott Borchetta sofreu a mesma reação ao dizer que a IA está transformando o processo de produção.
Especialistas consultados pelo G1 apontam várias razões para esse comportamento. Entre elas estão o receio de recém-formados de não conseguir emprego, a sensação de dependência em relação às ferramentas de IA, o descontentamento com representantes das grandes empresas de tecnologia, o desapontamento diante das expectativas criadas sobre a tecnologia e preocupações ambientais.
Medo de perder vagas de entrada no mercado
Pesquisadores destacam que a possibilidade de substituição de trabalho por máquinas assusta sobretudo quem inicia a carreira. Paulo Blikstein, do Teachers College da Universidade Columbia, afirma que jovens se sentem ameaçados porque estimam que empregos de nível inicial serão os mais afetados. A situação financeira — incluindo dívidas estudantis, no caso dos EUA — intensifica essa apreensão, segundo Adriano Peixoto, da Universidade Federal da Bahia, que explica a desconexão entre discursos otimistas de grandes nomes e o sentimento de frustração dos formandos.
Sensação de dependência
Especialistas observam também uma ambivalência: os alunos reconhecem a utilidade da IA, mas percebem que passam a depender cada vez mais dessas ferramentas. Esse sentimento de perda de autonomia é apontado como motivo das vaias.
Revolta contra as big techs
Outro fator é a identificação dos palestrantes com grandes empresas de tecnologia. Diretores do Colégio Visconde de Porto Seguro comentam que a reação pode se direcionar aos interesses econômicos dessas companhias e à falta de limites éticos percebida pelos jovens. Blikstein ressalta que agentes automatizados não reivindicam direitos trabalhistas, o que amplia a crítica ao modelo de negócio.
Frustração sobre promessas não cumpridas e impacto ambiental
Quando ferramentas como o ChatGPT se popularizaram há cerca de dois ou três anos, houve previsões otimistas sobre avanços médicos e sociais. Especialistas dizem que esse quadro mudou e que a conversa migrou para substituições de profissões, gerando desconfiança. Além disso, há debate crescente nos EUA sobre o elevado consumo de energia e água de data centers que suportam sistemas de IA; para alguns alunos, isso reforça a percepção de que benefícios econômicos se concentram em poucos, enquanto custos ambientais são suportados por todos.
Vídeos das vaias se espalharam nas redes sociais e acenderam o debate sobre como e quando discutir IA em eventos públicos tão simbólicos quanto formaturas.


