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sexta-feira, outubro 30, 2026

Brasil sai do Mapa da Fome, mas 44,8 milhões ainda não conseguem pagar alimentação saudável

Resumo dos dados e contexto

O Brasil foi considerado fora do Mapa da Fome pela ONU em julho de 2026, mas ainda registra 44,8 milhões de pessoas incapazes de arcar com uma alimentação saudável, conforme o relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo (Sofi)” da FAO. Entre 2023 e 2025, 20,3 milhões vivenciaram insegurança alimentar moderada ou grave, número inferior aos 39,7 milhões observados entre 2021 e 2023.

Quem são os mais afetados

O levantamento aponta maior prevalência de vulnerabilidade em domicílios chefiados por mulheres, com destaque para aqueles liderados por mulheres negras. Regionalmente, as populações do Norte e do Nordeste estão mais expostas. Especialistas ouvidas ligam o quadro a condições precárias de trabalho, baixos salários, informalidade e instabilidade de renda.

Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, mencionou a descontinuidade de renda em ocupações como a de trabalhadora doméstica como fator que aumenta a exposição à insegurança alimentar. Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), afirmou que a dificuldade não é apenas o contato com o Estado, mas a ausência de continuidade e integração nos atendimentos públicos.

Histórico e fatores de melhora

O relatório lembra que o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014 e voltou a figurar nele em 2022, quando 61,3 milhões de brasileiros enfrentavam insegurança alimentar e 4,1% da população (cerca de 8,6 milhões) vivia em situação de subnutrição. Em julho de 2026, a parcela de brasileiros em subnutrição caiu para abaixo de 2,5% em 2025, confirmando a saída do indicador.

Especialistas atribuem parte da recuperação a políticas de recuperação de renda e ampliação do acesso a alimentos, como reajustes do salário mínimo acima da inflação e retomada de programas de segurança alimentar, incluindo o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que compra alimentos de agricultores familiares e os destina a populações vulneráveis, escolas e hospitais.

Custo da alimentação saudável

A ONU calcula o custo de uma cesta variada capaz de fornecer cerca de 2.330 calorias diárias, selecionando os produtos mais baratos que atendam às recomendações de uma dieta equilibrada. Em 2025, o custo estimado dessa alimentação no Brasil foi de 4,89 dólares internacionais por pessoa por dia, ante 3,97 dólares internacionais em 2021.

Especialistas destacam que, mesmo com valorização do salário mínimo nos últimos anos, o poder de compra não garantiu acesso amplo a uma dieta saudável. Uma estimativa citada no relatório indica custo mensal de uma cesta saudável entre R$ 240 e R$ 250 por pessoa; para uma família de quatro pessoas, isso representa cerca de R$ 1.000, quase todo o salário mínimo de R$ 1.621.

Preços, produção e distribuição

O relatório e especialistas apontam que os preços de alimentos frescos sobem mais rápido que os de ultraprocessados, em parte por custos de transporte refrigerado e armazenagem. Produtos ultraprocessados se mantêm mais baratos por utilizarem insumos amplamente produzidos no país, como açúcar, gorduras e derivados de soja.

Eventos climáticos extremos também elevaram a volatilidade de hortaliças e outros produtos de ciclo curto, enquanto aumentos nos preços de combustíveis e fertilizantes importados elevaram os custos de produção. Além disso, há um desequilíbrio nos investimentos em pesquisa agropecuária, com foco maior em commodities de exportação do que em hortaliças, frutas e alimentos básicos.

Produção local e acesso

Recine observa que polos de produção, como o Vale do São Francisco, destinam grande parte da produção ao mercado externo, reduzindo a oferta local de frutas tradicionais. Entre as medidas apontadas para ampliar o acesso a alimentos frescos estão estímulo à produção local, venda direta ao consumidor, criação de feiras livres e reforço a programas de agricultura familiar, responsável por cerca de 60% da produção de hortaliças.

O relatório também aponta a existência de cerca de 25 milhões de brasileiros em desertos alimentares entre 2023 e 2024, dos quais 6,7 milhões eram de baixa renda ou viviam em situação de pobreza. Os pântanos alimentares abrigavam cerca de 15 milhões de pessoas, incluindo aproximadamente 104 mil em favelas e comunidades urbanas.

Integração de serviços e busca ativa

Para alcançar os 20,3 milhões que enfrentam insegurança alimentar moderada ou grave, o Consea e especialistas defendem integração entre saúde, assistência social e segurança alimentar, com atendimento contínuo e busca ativa. O governo federal lançou o Protocolo Brasil Sem Fome, que busca identificar municípios com os piores indicadores e articular serviços para que o atendimento pontual se transforme em acompanhamento contínuo.

Zimmermann ressalta que cruzamento de dados do Cadastro Único com sistemas de saúde e assistência social pode auxiliar na localização de famílias vulneráveis e na atualização cadastral necessária para o acesso a programas sociais.

Fim da reportagem.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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