Braskem protocolou, em 24 de agosto, pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões (R$ 56 bilhões) em dívidas. O pedido foi apresentado, em conjunto com algumas controladas, na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital do Estado de São Paulo, informou a companhia em comunicado ao mercado.
O cronograma divulgado prevê as seguintes etapas: em 31 de agosto a Braskem deve apresentar plano de negócios atualizado e proposta detalhada aos credores; em 9 de setembro estão previstas reuniões presenciais entre executivos, acionistas e credores; e até 9 de outubro corre o prazo para buscar acordo sobre as principais condições comerciais. Até o fim do período de 90 dias, a empresa precisa conquistar apoio suficiente para aprovar o plano definitivo.
A recuperação extrajudicial abrange a reestruturação de cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas financeiras da Braskem e de cinco empresas do grupo no exterior. O plano poderá prever medidas como alongamento de prazos, capitalização de juros e um período inicial de alívio financeiro. Paralelamente, a Braskem Idesa, subsidiária no México, entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, via Chapter 11. O plano da Braskem inclui ainda um aporte de US$ 476 milhões (R$ 2,427 bilhões) para manter o controle da subsidiária mexicana.
Entre as razões para a reestruturação constam os custos decorrentes do desastre geológico em Maceió, associado à exploração de sal-gema, que resultou na desocupação de mais de 14 mil imóveis e afetou cerca de 60 mil pessoas. A companhia já desembolsou mais de R$ 4,2 bilhões com indenizações, auxílios e realocações, e mantém R$ 3,24 bilhões reservados no balanço para custos futuros relacionados ao episódio.
Outros fatores citados são a deterioração das condições do mercado petroquímico global, com aumento da oferta e queda de preços, e a consequente redução da rentabilidade. O EBITDA recorrente da Braskem em 2025 somou US$ 557 milhões (R$ 2,840 bilhões), queda de 49% em relação a 2024. Ao final de 2025, a dívida líquida da companhia era de US$ 7,5 bilhões (R$ 38,25 bilhões) e a relação entre dívida e geração de caixa chegou a 14,7 vezes.
As ações da empresa acumularam perda de cerca de 82% desde o início da crise em Maceió, recuando de R$ 42,05 em fevereiro de 2018 para R$ 7,51 em 18 de junho de 2026. A Braskem Idesa também deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032, caracterizando default.
Houve mudança no controle societário: em abril a Novonor (antiga Odebrecht) firmou contrato para vender sua participação de controle ao fundo Shine I, ligado à gestora IG4 Capital, operação concluída em junho. Atualmente, a Petrobras detém cerca de 47% do capital votante e 36,1% do capital total, enquanto o fundo ligado à IG4 possui 50,1% do capital votante.
Criada em 2002 a partir da integração de ativos da então Odebrecht (hoje Novonor) e do Grupo Mariani, a Braskem atua na produção de resinas termoplásticas (polietileno, polipropileno e PVC) e insumos químicos. A empresa tem operações em 11 países, mais de 8 mil funcionários, 39 unidades industriais, 14 escritórios comerciais e sete centros de inovação, atendendo clientes em mais de 70 países. Em 2025, registrou R$ 70,7 bilhões em receita líquida; no segundo trimestre de 2026, teve receita de R$ 21,72 bilhões e lucro líquido de R$ 3,33 bilhões.
Mesmo com a melhora dos resultados no segundo trimestre de 2026, a companhia segue sob pressão financeira em função do elevado endividamento, dos efeitos do desastre em Maceió e das dificuldades do mercado petroquímico global.
Com colaboração dos repórteres Janize Colaço e André Catto


