A Chilli Beans, rede brasileira de óculos e relógios, apresentou neste sábado (31) um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar aproximadamente R$ 340 milhões em dívidas bancárias. Segundo a companhia, o acordo foi alinhado com os principais credores e prevê prazos e condições de pagamento revisados, além de um aporte de até R$ 50 milhões para viabilizar a reestruturação das operações.
A empresa esclareceu que as obrigações com fornecedores, empregados e outros parceiros não fazem parte do plano, que abrange exclusivamente débitos financeiros contraídos junto a instituições bancárias.
O movimento da Chilli Beans ocorre no mesmo período em que outras empresas de setores variados também recorreram a mecanismos de renegociação de dívidas. Em 2026, foram registrados 13 pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial até o momento, entre eles o do Grupo Gennius — controlador do Habib’s, Ragazzo e Tendall — e o da petroquímica Braskem.
Recuperação judicial x extrajudicial
Especialistas destacam a diferença entre os procedimentos: a recuperação judicial é conduzida sob supervisão da Justiça e tem como objetivo reorganizar dívidas para evitar a falência; a extrajudicial envolve negociações diretas entre a empresa e os credores, sem acionamento imediato do Judiciário. Em ambos os casos, o objetivo declarado é preservar a continuidade das atividades da companhia.
Contexto setorial e opiniões
Analistas ouvidos afirmam que o varejo concentra o maior número de casos, especialmente no segmento de bens duráveis, que sofre simultaneamente com estoques elevados e custo de endividamento. André Matos, CEO da MA7 Capital, observa que varejistas enfrentam dívidas mais caras enquanto os consumidores dependem de parcelamentos, pressionando o setor.
Para Júlio Moretti, CEO da NEOT, a sequência de pedidos deve persistir pelos próximos dois a três anos, sem representar, por ora, um risco sistêmico imediato à economia ou aos consumidores. Outros especialistas citam juros elevados, endividamento acumulado desde a pandemia, restrição de crédito e mudanças no comportamento de consumo como causas recorrentes.
Principais casos de 2026
Entre os pedidos registrados neste ano estão:
- Grupo Toky (Tok&Stok e Mobly): pedido de recuperação judicial para reorganizar cerca de R$ 1 bilhão em dívidas; fechamento de lojas e pressão de caixa foram citados; bloqueios relacionados a vendas no cartão ameaçaram salários de mais de 2 mil funcionários.
- St Marche (Grupo Hortus): pedido de recuperação judicial para renegociar R$ 574,3 milhões; a rede acertou venda ao grupo chileno Cencosud, operação sujeita à aprovação judicial e do Cade.
- Oncoclínicas: recuperação extrajudicial para tratar cerca de R$ 5,1 bilhões em dívidas financeiras; a empresa informou que o atendimento a pacientes e as atividades continuam; credores representando cerca de 37% das dívidas incluídas já haviam aderido.
- Alliança Saúde: plano de recuperação extrajudicial para renegociar cerca de R$ 1,1 bilhão; a proposta contempla diferentes formas de pagamento, incluindo conversão de parte da dívida em participação societária; mais de 83 credores representando cerca de 54% das dívidas já haviam aderido.
- Marabraz: pedido de recuperação judicial para tratar cerca de R$ 140 milhões; a rede afirmou que as lojas permanecem em funcionamento e busca preservar empregos e relações comerciais.
- Casas Bahia: pedido de recuperação judicial para reorganizar cerca de R$ 17,3 bilhões; a empresa passou por reestruturação que incluiu fechamento de lojas e demissões — em agosto foram dispensados cerca de 3 mil funcionários e quase 300 lojas foram fechadas — e registrou prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre.
- Braskem: pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar US$ 10,9 bilhões (aproximadamente R$ 56 bilhões) em dívidas incluídas no plano; considerando dívidas entre empresas do grupo, o montante chega a cerca de R$ 187,1 bilhões; o pedido contou com apoio de credores que representam 39,6% dos créditos incluídos.
- Grupo Gennius (Habib’s, Ragazzo e Tendall): pedido de recuperação judicial para reorganizar R$ 265,2 milhões; o processo envolve 178 empresas e dois produtores rurais; as franquias ficaram fora do pedido.
Outros fatores citados por especialistas e por executivos das empresas incluem aumento dos custos com matérias-primas, energia, salários e aluguéis, bem como mudanças no perfil de consumo, como maior preferência por delivery em restaurantes, que afetou a operação de redes como o Habib’s.
A reportagem segue acompanhando os desdobramentos dos processos de recuperação e as negociações entre as empresas e seus credores.
Fonte: G1


