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quarta-feira, agosto 12, 2026

Estoques recordes, tecnologia e maior participação do Brasil reduzem risco do “super El Niño” para oferta global de alimentos

Mercado global de alimentos está mais protegido contra choques climáticos, dizem especialistas

O sistema alimentar mundial chega a um episódio forte de El Niño em 2026 com uma capacidade maior de atenuar perdas do que em eventos semelhantes do passado, apontam dados da FAO e entrevistas da Reuters. Estoques de grãos próximos a níveis recordes, inovações tecnológicas e a maior participação de países como Brasil e Rússia entre os exportadores ajudam a compensar eventuais quebras de safra.

A FAO e especialistas consultados pela Reuters destacam que, desde a década de 1980, a produção agrícola mundial cresce em ritmo superior ao do consumo e da população. Esse avanço é atribuído a variedades de plantas mais produtivas, uso maior de fertilizantes, melhorias na irrigação e técnicas de proteção das culturas, que aumentaram a produtividade de arroz, trigo, milho e soja.

Andrew Whitelaw, da consultoria australiana Episode 3, afirmou que, mesmo sob condições de seca, práticas melhores de manejo da água e avanços na ciência das culturas permitem manter níveis de produção comercializáveis. Ele reconheceu, no entanto, que riscos para oferta e preços persistem.

O El Niño, já classificado como forte, começa a afetar plantios na Ásia — incluindo Índia e países do Sudeste Asiático — e na Austrália. A falta de chuva ocorre em paralelo à escassez de fertilizantes e diesel associada à guerra no Irã, elevando o risco para a produção global. A Índia registra monções abaixo do esperado, e a Austrália teme clima mais seco nas principais áreas produtoras de trigo. Indonésia e Tailândia também sentem impactos da seca.

Segundo o meteorologista Chris Hyde, da empresa americana SkyFi, o fenômeno deve se intensificar no quarto trimestre de 2026 e no início de 2027. Episódios severos anteriores, entre 1997-98 e 2015-16, reduziram a produção de culturas essenciais e contribuíram para inflação de alimentos e perda de atividade econômica em vários países.

Entre os elementos que funcionam como colchão contra perdas estão estoques elevados de grãos, sementes mais tolerantes à seca, previsões meteorológicas mais precisas, agricultura de precisão e sistemas de irrigação mais eficientes. Na Índia, a semeadura das principais culturas ocorre em ritmo próximo ao normal após um atraso inicial, mas as chuvas de agosto e setembro serão decisivas para o desenvolvimento das lavouras.

Dados citados pela Reuters mostram que os estoques indianos de arroz equivalem a mais de um ano das exportações globais do cereal, enquanto a China concentra quase metade dos estoques mundiais de trigo. Estoques globais de óleo de palma estão também próximos de recordes; esse óleo representa cerca de 60% das exportações mundiais de óleos comestíveis.

Outra mudança estrutural é o crescimento de novos grandes exportadores. O Brasil tornou-se o maior fornecedor mundial de soja, com exportações que cresceram mais de 13 vezes desde o El Niño de 1997-98. A Rússia aumentou fortemente sua presença nos mercados, com exportações de trigo chegando a 48 milhões de toneladas no ano passado, ante cerca de 1 milhão de toneladas em 1997-98. Essa diversificação facilita compensações regionais caso ocorra perda de safra em determinadas áreas.

A tecnologia também ampliou a resiliência das lavouras: híbridos de milho tolerantes à seca foram difundidos na África e nas Américas desde 2015; variedades de trigo resistentes ao calor e à falta d’água avançaram na Índia e na Austrália; e no Sul e Sudeste Asiático variedades de arroz de ciclo mais curto ajudam a lidar com chuvas irregulares. Produtores usam satélites, previsões sazonais, mapas de umidade do solo, sistemas de aplicação de insumos por GPS e plataformas baseadas em inteligência artificial para orientar plantio, irrigação e controle de pragas.

Especialistas, porém, alertam que o sistema continua suscetível a choques múltiplos. Conflitos no Oriente Médio e na região do Mar Negro podem reduzir ganhos decorrentes de estoques e tecnologia. A crise envolvendo o Estreito de Ormuz afetou o fornecimento de combustíveis e fertilizantes; antes do bloqueio relacionado à guerra no Irã, a passagem concentrava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo bruto e gás natural liquefeito.

Segundo Maximo Torero, economista-chefe da FAO, o impacto final do El Niño vai depender da evolução do clima no segundo semestre de 2026 e dos efeitos dos conflitos sobre a disponibilidade e os preços de insumos agrícolas. Apesar de estoques maiores, mais tecnologia e fornecedores capazes de compensar perdas, a combinação de clima extremo, conflitos e custos elevados de produção pode pressionar oferta e preços dos alimentos, com previsão de pressão sobre a inflação de alimentos em 2027, onde feijão e arroz devem liderar altas.

Fonte: G1

Evaldo Ribeiro
Evaldo Ribeirohttp://portalemdestaque.com.br
Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo portal Reporter Marechal, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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