Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2021 e copresidente do painel científico internacional da ONU sobre inteligência artificial, afirmou que a tecnologia pode corroer a autonomia humana se não houver leis que limitem seu desenvolvimento. As declarações foram feitas durante visita a Oslo, onde ela participou de uma conferência sobre ameaças às democracias.
Ressa alertou que o tempo para agir é curto e que, caso não sejam adotadas medidas regulatórias agora, o controle sobre a tecnologia poderá escapar ao alcance da sociedade. Ela pediu que cidadãos cobrem políticos e autoridades pela aprovação de regras que regulem o uso da IA, argumentando que a iniciativa não trata de restringir a liberdade de expressão, mas sim de proteger a segurança pública.
Três ondas da inteligência artificial
A jornalista descreveu a trajetória da IA ao longo de cerca de 70 anos e dividiu sua difusão em três fases que alcançaram o grande público. A primeira, segundo ela, foi impulsionada pelas redes sociais, que capturaram a atenção dos usuários, aprofundaram a polarização e favoreceram o isolamento social. A segunda fase teria explorado a dimensão íntima dos usuários por meio de chatbots, “hackeando” aspectos biológicos da necessidade de conexão.
A terceira fase, de acordo com Ressa, corresponde ao surgimento de IA agentivas e multiagentivas: modelos avançados que não apenas imitam comportamentos humanos, mas são capazes de agir em nome das pessoas. Esse salto, na visão dela, aumenta os riscos à autonomia individual e coletiva se não houver controle adequado.
Ressa também criticou argumentos contrários à regulação que se baseiam no receio de perder competitividade tecnológica em relação à China, classificando essa defesa como estratégia de relações públicas. Ela afirmou que, na prática, a China impõe salvaguardas maiores a seus cidadãos do que as oferecidas por empresas do Vale do Silício, citando como exemplo restrições de idade na versão chinesa do TikTok.
Sobre responsabilização, Ressa disse que o primeiro passo para mitigar danos é tornar as grandes empresas de tecnologia juridicamente responsáveis. Ela citou como exemplo ações judiciais nos Estados Unidos que resultaram em acordos que podem levar a Meta a pagar até US$ 18 bilhões ao longo da próxima década e a impor restrições severas ao uso do Facebook e do Instagram por adolescentes.
Embora tenha elogiado medidas recentes de União Europeia e Austrália que estabelecem limites etários nas redes sociais, Ressa ressaltou que essas medidas não solucionam o problema central: ferramentas que geram dependência também afetam adultos. Por isso, defendeu a remoção de funcionalidades projetadas para viciar usuários, não apenas a proteção de jovens.
Como alternativa, ela propôs a criação de plataformas de comunicação de interesse público, desenvolvidas fora do controle das grandes empresas, comparando esse investimento a bens públicos como praças e parques. Como exemplo prático, citou o lançamento do Rappler Communities em 2023, serviço baseado no protocolo aberto Matrix que permitiu à redação do Rappler conectar-se diretamente com leitores e fomentar interações entre usuários.
Ressa explicou que o projeto convidou outros veículos das Filipinas a participar e está em processo de expansão para países do Sudeste Asiático. Segundo ela, a iniciativa busca oferecer um espaço digital seguro para conversas reais, no qual as pessoas possam se ouvir mutuamente e fortalecer o funcionamento da democracia.
Antes das manifestações públicas de lideranças do setor, como Dario Amodei, executivo da Anthropic, favoráveis a uma desaceleração na criação de modelos de IA, Ressa já defendia que responsabilizar as big techs era o passo inicial para promover mudanças efetivas.
Fonte: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2026/09/15/ia-ganhadora-do-nobel.ghtml


