Quem e o que: A Torre Inclinada de Pisa, na Itália, e diversas construções ao redor do mundo apresentam inclinação sem, contudo, terem colapsado. Especialistas citados explicam as causas desse fenômeno e as formas de correção adotadas em casos críticos.
Onde e quando o problema aparece
Onde: Exemplos citados incluem a Torre de Pisa; as casas “dançantes” de Amsterdã, na Holanda; a Pagoda da Colina do Tigre, na China; e a torre da Oude Kerk, em Delft.
Quando: No caso de Pisa, a inclinação começou já durante a construção e se agravou ao longo dos séculos; medidas de correção foram tomadas no fim do século 20 e retomadas até 2001.
Por que as construções se inclinam
Mandy Korff, professora de prática geotécnica na Universidade de Tecnologia de Delft e no Deltares, explica que a inclinação pode decorrer de diferentes causas. Em Amsterdã, muitos prédios repousam sobre estacas de madeira colocadas em pares sob as paredes e fachadas, com cerca de 12 metros de comprimento, cravadas em solos de argila, turfa ou areia. Quando essas estacas se degradam de forma desigual ou sofrem apodrecimento, surgem fissuras e as construções podem tender para um lado.
No caso da Torre de Pisa, Nunziante Squeglia, professor de mecânica do solo e fundações da Universidade de Pisa, afirma que a torre afundou entre três e quatro metros desde o início da obra devido à extrema maciez do solo local. Em Delft, a torre da Oude Kerk inclinou-se em direção ao canal porque a escavação de um lado deixou o solo mais macio, reduzindo o suporte lateral.
Além disso, alterações nas águas subterrâneas provocadas por ações humanas podem afetar a estabilidade dos terrenos. Korff acrescenta que algumas edificações foram projetadas para terem uma leve inclinação intencional — por exemplo, fachadas de casas comerciais voltadas para frente em Amsterdã — mas a inclinação lateral indica problema.
Como se corrige e qual o custo
Nem toda inclinação significa risco imediato de desabamento; segundo Korff, a instabilidade estrutural ocorre quando a inclinação atinge níveis elevados. Em Pisa, o agravamento observado no século 20 levou ao fechamento da torre no ano seguinte ao desabamento da Torre Cívica de Pavia, ocorrido em 1989, o que motivou ações de estabilização.
A técnica escolhida para a Torre de Pisa foi a extração de solo: sem tocar na torre, foram retirados 37 metros cúbicos de terra do lado norte da fundação, procedimento que permitiu reabrir a estrutura 11 anos depois. Korff ressalta que esse método é altamente específico e incomum; outras intervenções possíveis incluem a substituição de fundações — processo invasivo que exige remoção do piso térreo — ou o levantamento da edificação, operação que pode causar mais danos se não for bem executada. Em casos avançados, tentar endireitar totalmente pode ser perigoso, porque o edifício pode já ter se adaptado à nova posição.
Impacto futuro e mudanças climáticas
Korff estima que existam cerca de 75 mil casas na Holanda construídas sobre estacas de madeira que correm risco de danos, com quase três vezes mais residências vulneráveis devido a fundações rasas. Mudanças no nível da água subterrânea, potencializadas pelas alterações climáticas, podem acelerar a deterioração das estacas ao expô-las ao ar e também alterar as camadas do solo, afetando diferentes tipos de fundação. No entanto, ela observa que esses processos costumam ser lentos.
No caso de Pisa, as obras concluídas em 2001 reduziram a inclinação em mais de 40 centímetros, e os engenheiros consideraram a torre segura pelos próximos 200 anos.


