Relançamento do Desenrola busca frear alta da inadimplência
O governo federal reativou o Novo Desenrola Brasil (Desenrola 2.0) no início de maio, em meio a um recorde no número de famílias endividadas e poucos meses antes das eleições presidenciais. Dois anos após o encerramento da primeira edição, em maio de 2024, o total de inadimplentes no país subiu 10,3 milhões, alcançando 82,8 milhões de pessoas.
Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o crescimento da inadimplência pode ser explicado por um “efeito sanfona” provocado pelas variações da taxa Selic e por desdobramentos da pandemia de Covid-19. Em entrevista ao programa Roda Viva, ele afirmou que o período pós-pandemia teve falta de reajuste de renda e desemprego elevado, fatores que esmagaram parte da capacidade de pagamento das famílias.
Especialistas ouvidos por analistas do mercado consideram, entretanto, que o impacto do programa anterior foi restrito e temporário. Eles apontam para um conjunto de fatores que explicam a persistência do problema: inflação persistente — sobretudo no segmento de alimentos — custo de vida elevado, renda insuficiente, crédito caro e ausência de educação financeira adequada.
O economista Tiago Velloso ressalta que, embora juros mais altos encareçam o custo do dinheiro e pressionem a inadimplência, outros elementos influenciaram a situação após o Desenrola 1. Segundo ele, choques externos, como conflitos no Oriente Médio e a guerra na Ucrânia, elevaram preços do petróleo e retardaram a queda da inflação e das taxas de juros no Brasil. A executiva Milene Dellatore, do Grupo Mide, acrescenta que a digitalização acelerada do sistema financeiro ampliou o acesso ao crédito sem que houvesse preparação adequada da população.
O que mudou na prática entre as edições
O primeiro Desenrola, realizado entre maio de 2023 e março de 2024, focou em dívidas negativadas entre 2019 e 2022 com valor atualizado inferior a R$ 20 mil. Segundo o censo do programa, cerca de 14,8 milhões de pessoas foram beneficiadas e foram firmados R$ 53,2 bilhões em acordos, com descontos que chegaram a mais de 90% para pagamentos à vista. As renegociações ocorreram majoritariamente por celular, envolveram predominantemente mulheres e a faixa etária de 35 a 44 anos, e se concentraram em dívidas bancárias e de cartão de crédito. Entre os elegíveis, a inadimplência recuou 8,7%, de acordo com o governo.
Empresas do setor registraram efeitos positivos temporários: a Recovery indicou que cerca de 500 mil dívidas bancárias foram quitadas, com 290,4 mil acordos firmados, beneficiando 278 mil clientes. Ainda assim, indicadores agregados mostraram melhora limitada: segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), o endividamento geral variou de 76,9% em outubro de 2023 para 78,8% em março de 2024, enquanto a inadimplência geral caiu apenas 0,5 ponto percentual, de 29,7% para 28,6%. A Serasa registrou aumento no número absoluto de inadimplentes, de 71,95 milhões em outubro de 2023 para 72,54 milhões em maio de 2024, um acréscimo de cerca de 590 mil pessoas ao fim da primeira edição.
Principais diferenças do Desenrola 2.0
A nova fase prioriza famílias de menor renda, com teto de até cinco salários mínimos, e passou a permitir que instituições financeiras “desnegativem” dívidas de até R$ 100. Em um balanço inicial divulgado na quinta-feira (21), o ministro Dario Durigan informou que, no eixo voltado a famílias, foram 449 mil dívidas quitadas à vista com desconto médio de 85% — de um montante de R$ 1 bilhão, foram pagos R$ 154 milhões — e 685,5 mil dívidas refinanciadas com o mesmo percentual médio de desconto — de R$ 9 bilhões, foram refinanciados R$ 1,3 bilhão.
Durigan avaliou que a primeira edição teve efeito, mas perdeu força com a alta dos juros, e disse que o objetivo é tornar as renegociações compatíveis com a expectativa de novo ciclo de corte de juros. Analistas, por sua vez, afirmam que medidas pontuais como o Desenrola têm eficácia limitada sem mudanças estruturais, destacando a educação financeira e a melhoria da renda média como fatores essenciais para evitar novos ciclos de endividamento.


