Renúncia do presidente do BC em meio à crise do Ueno
Carlos Carvallo apresentou sua renúncia ao cargo de presidente do Banco Central do Paraguai nesta terça-feira, 3 de novembro de 2026, após a eclosão de uma crise no banco digital Ueno, que possui cerca de 3 milhões de clientes no país. A situação também intensificou críticas e pressões sobre o governo do presidente Santiago Peña.
O Ueno, controlado majoritariamente pelo Grupo Vázquez e reconhecido como a maior emissora de cartões de crédito do Paraguai, enfrentou ajustes em seus balanços que reduziram seu índice de solvência para menos da metade do mínimo exigido, segundo as autoridades. A instituição passou a ser alvo de investigações regulatórias e criminais.
Em resposta à deterioração das contas do banco, o Banco Central instaurou procedimentos voltados a proteger depositantes e evitar contágio ao sistema financeiro. O Ministério Público solicitou a abertura de investigação criminal e determinou a prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno.
Órgãos reguladores haviam intensificado a fiscalização nos meses anteriores para apurar se o Ueno teria financiado, de forma indireta, a venda de uma carteira de ativos de uma companhia ligada ao Grupo Vázquez — operação que o banco nega ter realizado.
A crise provocou correria a agências do Ueno nesta terça, quando clientes — entre eles aposentados que recebem benefícios governamentais por meio do banco — encontraram as portas fechadas. “Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, declarou Manuel Cáceres, morador de Ñemby, à agência Reuters.
O presidente Santiago Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para agilizar a votação de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia nacional para efetuar pagamentos a depositantes, medida que, segundo ele, deve assegurar a devolução de recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e outros fundos públicos de previdência. O Ueno administra cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos no Paraguai.
Autoridades do Banco Central afirmaram que o caso é isolado e não indica problemas sistêmicos no setor financeiro. “Este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”, disse o presidente Peña, acrescentando que os responsáveis “devem responder perante o Judiciário, sem exceções e sem privilégios”. A Superintendência de Bancos foi instruída a nomear auditores para avaliar os ativos do Ueno.
Carvallo havia comandado o próprio Ueno até agosto de 2023 e vinha sendo alvo de críticas parlamentares pela supervisão da instituição. Ao anunciar sua saída, afirmou que permaneceria no cargo durante os procedimentos adotados pelas autoridades, mas que a renúncia ajudaria a reduzir a controvérsia envolvendo o Banco Central, permitindo que a instituição e a Superintendência de Bancos atuassem sem disputas políticas e repercussão na imprensa.
O episódio também teve impacto nos mercados: preocupações com a situação do Ueno pressionaram tanto os títulos em dólar do banco com vencimento em 2031 quanto os títulos da dívida do Paraguai. O crescimento rápido do Ueno, saindo de uma fintech de nicho para um banco de médio porte em trajetória parecida à de plataformas digitais como Monzo e Nubank, colocou sob foco a regulação e a supervisão do setor.
Parlamentares já haviam rejeitado um relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto, o que aumentou pedidos de demissão da cúpula do Banco Central. O presidente Peña tem vínculos anteriores com o grupo controlador do Ueno: foi sócio até março de 2025.
Fonte: G1


