Lead: A existência da segunda maior reserva mundial de terras raras no Brasil elevou o país ao centro de uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. O tema esteve entre os pontos da reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em 7 de maio de 2026, e também é pauta do Congresso Nacional.
O que são terras raras
As chamadas terras raras formam um conjunto de 17 elementos químicos da Tabela Periódica — 15 lantanídeos mais escândio e ítrio — que aparecem juntos nas rochas e são difíceis de separar pela semelhança química. Especialistas consultados apontam que esses elementos funcionam como “vitaminas” da indústria tecnológica: utilizados em pequenas quantidades, podem ser essenciais para o desempenho de motores elétricos, alto-falantes, telas, turbinas eólicas e equipamentos médicos.
Propriedades e aplicações
Um dos diferenciais é o magnetismo forte de elementos como neodímio e praseodímio, consequência de elétrons em orbitais profundos (4f) que mantêm spins estáveis. A estabilidade térmica de certos lantanídeos também os torna valiosos em chips e componentes que operam em altas temperaturas. Em aplicações práticas, as terras raras aparecem em superímãs de carros elétricos, nas vibrações e alto-falantes de celulares, nos geradores de turbinas eólicas e em equipamentos de defesa e saúde, entre outros.
Processamento: custo e complexidade
O alto custo não decorre da escassez geológica, mas da dificuldade industrial em separar elementos quimicamente semelhantes. O processamento envolve várias etapas: concentração física do minério (em que, segundo especialistas, de cada mil quilos de minério pode sair um quilo de terra-rara ou menos); ataque químico com reagentes caros; remoção de impurezas e controle de radioatividade (quando há tório e urânio); separação individual por extração por solventes — com dezenas ou centenas de etapas repetidas — e precipitação/refino final em óxidos comerciais. Esse conjunto exige plantas industriais específicas, consumo intenso de reagentes, controle de efluentes e pessoal qualificado.
Leves versus pesadas e preços
No mercado, a distinção entre terras raras “leves” (ex.: lantânio, cério, neodímio) e “pesadas” (ex.: disprósio, térbio, lutécio) é determinante para o valor da jazida. Elementos pesados são mais difíceis de isolar e, por isso, chegam a preços elevados — o óxido de lutécio é citado entre US$ 5 mil e US$ 15 mil por quilo, de acordo com pesquisadores.
Impacto ambiental
A atividade de extração e o processamento têm impactos significativos: uso de substâncias tóxicas, geração de resíduos potencialmente radioativos, alto consumo de água e energia, desmatamento e risco de contaminação de águas superficiais e subterrâneas. No caso das argilas iônicas, que facilitam a extração por estarem menos cristalizadas, o processo pode implicar lixiviação do solo.
Por que o Brasil é estratégico
Geologicamente, o Brasil reúne condições raras: origem vulcânica de certos magmas (como os carbonatíticos), clima tropical que promove intemperismo e tempo geológico, combinação que favoreceu a concentração de terras raras. A Província Ígnea do Alto Paranaíba, no cinturão Araxá-Catalão (Minas Gerais e Goiás), é citada como uma das maiores faixas contínuas de jazidas de terras raras pesadas fora da China. Além das rochas, as argilas iônicas descobertas recentemente representam um “tesouro” de extração mais fácil, embora com desafios ambientais.
Desafios industriais do Brasil
Embora o país detenha grandes reservas, falta-lhe a cadeia de refino e transformação em componentes de alto valor agregado. Universidades e centros de pesquisa mantêm parte do conhecimento, mas a indústria de processamento está concentrada na China, que responde por cerca de 90% do refino mundial. O risco é exportar minério bruto por preços baixos e importar produtos finais mais caros.
Guerra fria das terras raras entre China e EUA
O domínio chinês das refinarias tornou o acesso a terras raras uma vulnerabilidade estratégica para os EUA. Para reduzir dependência, o governo americano busca fornecedores alternativos, com interesse no Brasil. Na negociação entre Lula e Trump, as prioridades divergiram: os EUA demandam acesso rápido, menos entraves ambientais e garantias de fornecimento preferencial; o governo brasileiro defende soberania sobre o subsolo, rejeita exclusividade e busca agregação de valor local.
Medidas no Congresso
Antes do encontro em Washington, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência a criação da Política Nacional para a Exploração de Minerais Críticos, que prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para atrair empresas com tecnologia de transformação. O projeto condiciona parcerias à transferência de tecnologia e à valorização do recurso no país.
O tema segue no centro das negociações bilaterais e legislativas, com foco em acessar reservas, controlar impactos ambientais e construir capacidade industrial para transformar minérios em tecnologia.
Fonte: G1


