TRANSMISSÃO: Band | YouTube | para se dedicar a canais dark (YouTube)
Henrique Batista, 36 anos, largou o serviço de entregas de hambúrgueres em Paraopeba (MG) há cerca de dois anos para se dedicar à produção de vídeos gerados por inteligência artificial em canais “dark” no YouTube e a mentorias. A decisão, segundo ele, foi motivada por um dia de trabalho difícil em que foi pego pela chuva. Comprou um curso do youtuber Peter Jordan por aproximadamente R$ 400 e, a partir daí, passou a montar roteiros, narrações e imagens usando ferramentas de IA.
O que são canais “dark” e como funcionam
Os chamados canais “dark” ou “faceless” publicam conteúdo sem mostrar o rosto ou a voz do criador. Produtores como Henrique utilizam ferramentas de IA para criar roteiros, gerar narrações sintetizadas e compor imagens. A monetização ocorre principalmente pela participação na receita de anúncios exibidos nos vídeos, que varia conforme visualizações, perfil e localização da audiência. Henrique afirma ter conseguido monetizar um canal e reinvestir os ganhos em outros projetos.
Casos e trajetórias
A produtora Tai Squinalli, 43 anos, também migrou para esse modelo. Depois de perder a remuneração de cinco canais em uma onda de desmonetização, ela relata ter alcançado, em um mês, R$ 75 mil em receita antes da queda. Tai pagou cerca de R$ 1.000 por um curso e mais R$ 600 em mentoria, mudou de nicho e hoje diz ganhar entre R$ 5 mil e R$ 10 mil mensais com canais em espanhol, trabalhando até 12 horas por dia em períodos de maior demanda.
O mercado de cursos e promessas
Ao mesmo tempo em que surgem criadores que vendem cursos e mentorias para ensinar a montar canais com IA, pesquisadores e estudiosos apontam para uma forte presença de promessas de ganhos fáceis. Um exemplo citado é o canal Nova Riqueza IA, do influenciador Arthur Diniz, que divulga métodos para transformar a internet em renda. Diniz afirma que a IA reduz barreiras técnicas, mas reconhece que nem todos conseguirão manter um negócio sustentável.
Pressões sobre qualidade e responsabilidade
Plataformas e especialistas alertam para problemas relacionados à produção em massa de conteúdo gerado por IA. Pesquisas apontam que conteúdos de baixa qualidade feitos com IA têm presença relevante no YouTube: estudo da empresa Kapwing indica que 20% do conteúdo exibido a novos usuários seria “vídeo de IA de baixa qualidade”, e análise do New York Times detectou mais de 40% de vídeos com imagens geradas por IA após sessões de 15 minutos em canais infantis.
O YouTube afirma que o conteúdo gerado por IA é permitido, mas que combater publicações de baixa qualidade é prioridade, especialmente as direcionadas ao público infantil. A plataforma lembra que todo conteúdo deve seguir diretrizes da comunidade e políticas de monetização, e que, quando apropriado, rótulos são aplicados para informar espectadores sobre material sintético.
Riscos apontados por pesquisadores
Pesquisadores, como Shuo Niu, e analistas brasileiros destacam riscos como a falsificação de conhecimento especializado, quando pessoas sem formação passam a se apresentar como autoridades usando roteiros gerados por IA. Além disso, a falta de checagem pode levar à divulgação de informações imprecisas em temas sensíveis, como saúde e finanças. Há também debate sobre a responsabilidade do YouTube, cujo sistema de recomendação e monetização pode incentivar a produção em escala de conteúdos de baixa qualidade.
Especialistas consultados pela reportagem afirmam que, apesar da tecnologia facilitar tarefas técnicas, obter remuneração consistente exige trabalho, estratégia e, em muitos casos, investimentos em cursos e mentorias. O YouTube exige, para monetizar, que um canal alcance ao menos 1.000 inscritos e 4.000 horas de exibição pública nos últimos 12 meses.
Entre os influenciadores do mercado, o youtuber Peter Jordan é citado como referência por muitos produtores que migraram para os canais dark. Ele e outros criadores destacam a velocidade de produção como vantagem, mas também reconhecem limitações e o esforço necessário para transformar os primeiros resultados em renda recorrente.
O debate sobre qualidade, responsabilidade e regulação desse tipo de conteúdo segue em curso, enquanto criadores e mentores promovem métodos para quem busca substituir trabalhos tradicionais por atividades ligadas à criação de vídeos com inteligência artificial.
G1 – Os trabalhadores que ‘dão adeus à CLT’ atrás do sonho de viver fazendo vídeos de IA


