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sábado, outubro 10, 2026

Tradição do pescado une rio, mar e tanques e sustenta economia no Espírito Santo

Oração, memória e mudança

Cacique Kara’í Perú e a mãe, Keretxu Emdey, de 86 anos e pajé da Aldeia Piraquê-Açu, em Aracruz, iniciam rituais às margens do Rio Piraquê-Açu com cantos em guarani que pedem proteção para as águas, os peixes e a comunidade. Para os indígenas, o rio foi, por décadas, fonte de alimento e aprendizado — lugar onde crianças aprendiam a nadar e jovens aperfeiçoavam a pesca —, mas a relação com o curso d’água mudou.

Perú afirma que não pesca no rio há mais de dez anos e relaciona a redução de vida no leito à contaminação provocada pelo desastre de Mariana, em 2015. A associação faz parte da memória local, embora estudos ambientais mais aprofundados sejam necessários para comprovar causalidade. Ainda assim, o cacique resume a percepção: “o rio tá morto”.

Da extração à criação

Diante das transformações, a comunidade passou a adotar a piscicultura em tanques como alternativa. Mesmo assim, dúvidas sobre a qualidade da água e do lençol freático levaram muitos a preferir comprar peixes capturados longe da aldeia. O pescado, ressaltam lideranças, tem importância cultural e econômica: alimenta famílias, gera renda e movimenta uma cadeia que vai do ponto de captura ao consumidor final.

Organização e mercado

Rafael Viola, do Sindicato dos Pescadores do Estado do Espírito Santo (Sindipesca-ES), destaca que o conhecimento do pescador sobre marés, ventos e hábitos dos animais é um saber construído por gerações e que corre o risco de se perder. Para mitigar a fragmentação do setor — formado por pescadores, armadores, peixarias, fábricas de gelo e comerciantes —, o sindicato busca articular esses elos.

Entre as ações citadas estão o projeto Pesca Mais ES, que visita comunidades para mapear problemas e propor soluções conjuntas, e a Semana do Pescado, que já mobilizou dezenas de estabelecimentos e resultou na venda de cerca de 200 toneladas de pescado, com movimentação aproximada de R$ 7,5 milhões, segundo o Sindipesca.

Gerações que se adaptam

Na ponta do comércio, Ianca de Oliveira Silva Lima, de 30 anos, é filha e neta de pescadores e cursa Engenharia de Pesca no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes). Mantém há três anos uma peixaria com atendimento a clientes, restaurantes e compradores em Minas Gerais e pretende, como engenheira, ajudar a comunidade com informações sobre direitos, licenças e boas práticas. Ianca reconhece as dificuldades econômicas da atividade — viagens ao mar com risco de prejuízo e longos períodos longe de casa — e diz que a profissionalização é seu caminho para fortalecer o setor sem deixar a tradição familiar.

Aquicultura em áreas rurais

Em Domingos Martins, na Região Serrana, a família Sassemburg Pereira adotou a criação de tilápia na propriedade como complemento de renda. A família possui oito tanques — dois em criação e seis como reservatório — com capacidade de cerca de 10 mil peixes por tanque. A produção atual é de aproximadamente 20 toneladas por ano, com possibilidade de chegar a 40 toneladas. O médico-veterinário Frederico Sassemburg, que estudou e voltou à propriedade, aplica técnicas para melhorar produtividade e qualidade, ressaltando o trabalho contínuo de manejo, despesca, resfriamento e transporte.

Cooperativa e escala

A Cooperativa de Empreendedores Rurais de Domingos Martins (Coopram) atua fornecendo ração com pagamento no final do ciclo e garantindo a compra do pescado, o que dá previsibilidade ao produtor. Criada em 2007 com 20 cooperados, a Coopram soma hoje mais de 700 membros, cerca de 200 produtores de tilápia, e trabalha também com outras cadeias como citros e alimentação escolar.

Em 2025, a cooperativa investiu cerca de R$ 12 milhões em uma nova unidade de filetagem. Atualmente processa em média três toneladas de tilápia por dia, com meta de chegar a cinco toneladas diárias e objetivo futuro de alcançar 20 toneladas por dia, o que representaria até 400 toneladas por mês em plena capacidade.

Dados e políticas públicas

Segundo a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), citando dados do IBGE, a aquicultura no Espírito Santo produziu cerca de 7,18 mil toneladas em 2025, com a tilápia respondendo pela maior parte. O painel do Registro Geral da Atividade Pesqueira do Ministério da Pesca e Aquicultura registra 51.288 pescadores no estado, dos quais 51.004 são artesanais; há também cerca de 1,3 mil embarcações cadastradas.

O governo estadual cita ações de assistência técnica, financiamento e apoio a estruturas de armazenamento e beneficiamento; entre os instrumentos está o Fundo Social de Apoio à Agricultura Familiar (Funsaf), com um edital em andamento que destinou R$ 2,5 milhões para organizações da pesca artesanal, para financiar caminhões refrigerados, fábricas de gelo e pequenas estruturas de beneficiamento. A Seag também vem comprando filé de tilápia para merenda por meio de cooperativas.

O secretário Enio Bergoli defende que cooperativismo e assistência técnica são pilares para fortalecer tanto a pesca extrativa quanto a aquicultura, além de modernizar métodos de captura e fomentar a maricultura ao longo da costa como alternativa de renda.

Continuidade cultural

Para muitos entrevistados, o desafio é conciliar tradição e inovação: preservar conhecimentos ligados à pesca enquanto se amplia acesso a tecnologia, mercado e formação. Enquanto a jovem Ianca busca unir estudo e prática familiar, o cacique Perú mantém a fé no rio e, ao final da conversa, repete o canto de bênção acompanhado por um chocalho, pedindo proteção às águas e a todos que dependem delas.

Fonte: G1 – Espírito Santo

Evaldo Ribeiro
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Evaldo Ribeiro é produtor de conteúdo digital e responsável pelo Portal em Destaque, atuando na criação, apuração e divulgação de conteúdos informativos de interesse público, com foco regional e relevância para a comunidade.
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